Quando me disseram que eu precisaria estar espiritualmente preparada para ir à Índia, confesso que não compreendi plenamente o que isso significava.
Antes dessa viagem, tive duas oportunidades de conhecer o país, ambas adiadas por razões que, à época, pareceram meramente circunstanciais: na primeira, compromissos profissionais — com visto já emitido; na segunda, a descoberta da gravidez.
Foi somente depois de finalmente pisar em solo indiano que tudo fez sentido. A Índia não é apenas um destino, é uma experiência profunda, que atravessa os sentidos e a alma. Um país absolutamente maravilhoso e marcante, onde as cores são intensas, os sabores inesquecíveis e a espiritualidade se manifesta de forma quase palpável, em cada gesto, olhar e ritual cotidiano.
Fiz o roteiro clássico do Rajastão, começando por Nova Delhi. Para uma turista ocidental como eu, a cidade se apresenta de imediato como um caos organizado — trânsito intenso sem semáforos, buzinas que substituem a sinalização, pessoas descendo dos veículos para ordenar os cruzamentos, monumentos de grande impacto histórico, especialmente os dedicados a Gandhi, e mercados de rua percorridos em passeio de bicicleta guiado a mil por hora, por ruas estreitas.
Meu debut na gastronomia indiana foi no The Spice Route, o restaurante asiático mais icônico da Índia, que combina história, design e alta gastronomia em uma jornada sensorial pelo sul da Ásia, localizado no lendário Hotel The Imperial, em Nova Delhi onde me hospedei durante a viagem.
Seguimos para Agra, ponto alto da viagem, onde a mais célebre história de amor da Índia se eterniza no Taj Mahal, mausoléu do século XVII construído pelo imperador mogol Shah Jahan em homenagem à sua esposa Mumtaz Mahal, em uma experiência ainda mais exclusiva graças à hospedagem no The Oberoi Amarvilas, ao lado do monumento, que nos permitiu acesso privilegiado — entre os primeiros a entrar ou os últimos a sair, praticamente com o Taj Mahal só para nós.
A grande surpresa da viagem foi a hospedagem no Six Senses Fort Barwara, no caminho para Jaipur. Instalado em um forte do século XIV cuidadosamente restaurado, o antigo palácio real do Rajastão foi transformado em um santuário de bem-estar, onde arquitetura histórica, conservação exemplar e luxo contemporâneo convivem em perfeita harmonia. Entre tratamentos e massagens, vivemos um verdadeiro refúgio sensorial — um respiro absoluto da intensidade da Índia, a ponto de quase esquecermos onde estávamos.
De lá, partimos para um safári organizado pelo hotel no Ranthambore National Park, antigo território de caça dos marajás de Jaipur e hoje um dos santuários de vida selvagem mais emblemáticos do país. O parque conta com nove rotas, sorteadas no dia da visita e, para nossa surpresa, na segunda tentativa — já no fim da tarde — fomos recompensados com o encontro com o majestoso tigre-de-bengala.
Seguimos para Jaipur, a Cidade Rosa, que encanta pelo conjunto de fortes e palácios monumentais — como o Amber Fort, o City Palace e o Hawa Mahal — e pela energia vibrante de seus bazares, onde a herança real do Rajastão se mistura à vida cotidiana. Caminhar pelas ruas é assistir à vida real acontecer: cenas improváveis se sucedem, como a de um dentista atendendo a céu aberto, com seus instrumentos expostos, pronto para socorrer qualquer passante em meio ao vaivém urbano.
Durante a visita ao City Palace, fomos surpreendidos ao encontrar a própria princesa de Jaipur, que mantém ali a PDKF Store (Princess Diya Kumari Foundation), uma loja dedicada ao artesanato local e ao fortalecimento das artesãs do Rajastão. A experiência se completa ao acordar todos os dias, no The Oberoi Rajvilas, em Jaipur, ao som dos pavões que desfilam com a cauda aberta sobre as villas do hotel, transformando a manhã em um espetáculo silencioso de beleza e realeza.
Encerramos a viagem em Udaipur, uma verdadeira cidade de conto de fadas, marcada por palácios de mármore, como o imponente City Palace às margens do Lago Pichola. Conhecida como a Cidade dos Lagos e considerada a mais romântica do Rajastão, é um charme navegar de barquinho pelo lago, deslizando de um lado a outro entre palácios que parecem flutuar sobre a água.
Os hotéis à beira do lago oferecem esse tipo de transporte — como o The Oberoi Udaivilas, onde me hospedei — encerrando a viagem com chave de ouro. Ali, presenciei a montagem de um casamento indiano, famoso no mundo todo pela sua grandiosidade, cores vibrantes e rituais que transformam hotéis palácio em cenários de celebração contínua por vários dias.
Udaipur também conquistou por seus tecidos ricamente bordados à mão, que nos renderam casacos sob medida — peças únicas que se tornaram lembranças para a vida toda, em uma parada obrigatória na Ganesh Handicraft by Vipul Shah. Hoje, esses mesmos bordados ganham projeção internacional ao chegar às passarelas das principais semanas de moda da Índia, levados por grandes estilistas como herança viva do artesanato indiano.
Entre templos hindus onde a devoção convive com vacas circulando livremente pelas ruas, um povo que fala inglês fluentemente e carrega tradições milenares como o sistema de castas, a Índia se revela em seus contrastes mais profundos — um país superpopuloso que preserva tradições ancestrais enquanto avança com tecnologia de ponta em constante transformação.



























