Bergamota, figo, lírio e flor de laranjeira. Bastava abrir a porta da minha suíte no Cheval Blanc St. Barth, na encantadora ilha francesa no Caribe, para o cheirinho da maresia e das plantas tropicais dos idílicos jardins da propriedade se mesclarem com perfeição a essa elegante fragrância. Ao sentir o aroma, criado para o hotel com exclusividade pelos perfumistas da Guerlain, minha sensação de tranquilidade e aconchego foi imediata.
Aromas contam histórias. Não precisamos de mais que uma mera nota de um perfume para
instantaneamente nos lembrarmos de pessoas, lugares e situações. Cheiros têm esse
fantástico poder de nos teletransportar e reativar emoções.
A LVMH elegeu a Guerlain, responsável também pelos produtos utilizados nos tratamentos corporais e faciais dos spas do grupo, para criar um perfume exclusivo para cada um dos hotéis Cheval Blanc. Cada fragrância é genialmente capaz de traduzir a essência dos hotéis e destinos, da tropical St. Barth ao gélido inverno de Courchevel.
Na Ásia, essa prática de mesclar hotelaria e perfumaria é antiga, utilizada com maestria em redes como Peninsula Hotels ou Mandarin Oriental há muito tempo. No Ocidente, a marca Westin, da Marriott International, foi a primeira a ter um perfume exclusivo para seus hotéis, misturando chá branco, baunilha e cedro.
Com o passar dos anos, para nossa sorte, a hotelaria entendeu que criar memórias olfa
tivas é ferramenta fundamental para aprofundar as conexões emocionais com hóspedes, independentemente de sua origem ou faixa etária. É cientificamente comprovado que o ser humano responde aos aromas de forma bastante emocional. A estrutura neural responsável pelo olfato tem relação íntima com o sistema límbico, que regula memória e emoção.
Um estudo da Universidade Rockefeller, em Nova York, concluiu que o olfato é muito mais potente que outros estímulos sensoriais na fixação de memórias humanas. Somos capazes de nos lembrar de cerca de 35% dos odores que sentimos — contra apenas 5% da memória visual e meros 2% da memória auditiva. Essa conexão neurológica, mesmo de maneira inconsciente, é constantemente explorada durante nossas viagens, estabelecendo vínculos importantes entre cheiros, lugares e sensações.
Aromas do exotismo ao frenesi urbano
A criação de um “aroma perfeito” para um hotel, capaz de representar sua essência e relacioná-la com o destino que o recebe (uma praia, grande cidade, região montanhosa, floresta, deserto…) não é tarefa simples.
Esse processo de desenvolver uma identidade olfativa eficaz pode levar meses e até anos de pesquisa minuciosa. Mas uma fragrância bem desenvolvida, quando colocada na mala de volta para casa, é capaz de reavivar rapidamente as melhores memórias.
O Royal Mansour Marrakech, no Marrocos, que nasceu do sonho de hospitalidade do rei Mohammed VI, desenvolveu uma coleção de fragrâncias exclusivas com Francis Kurkdjian, fundador da Maison Francis Kurkdjian e um dos perfumistas mais renomados do mundo. Os perfumes foram inspirados no artesanato e nos aromas do próprio palácio, utilizando matérias-primas essencialmente marroquinas, como madeira de cedro do Atlas, tomilho, sândalo, baunilha, flor de laranjeira, pétalas de rosa, canela.
O quase vizinho La Mamounia escalou a renomada perfumaria Fragonard para criar uma fragrância exclusiva que tem como base as notas da flor de laranjeira, espécie espalhada pelos extensos e idílicos jardins do hotel.
No Gran Hotel Tremezzo, na Itália, foram seus jardins impecavelmente cuidados à beira d’água que inspiraram a Aqua Como 1910, fragrância floral que é quase como sentir a brisa do Lago di Como num delicioso dia de primavera, agora reproduzida em cada ambiente do hotel.
Já as propriedades do grupo Four Seasons na Itália firmaram parceria há muitos anos com o premiado perfumista Lorenzo Villoresi. Para o hotel em Florença, o expert, nascido e criado nos arredores da cidade, desenvolveu uma fragrância e uma linha completa de amenidades de banho que são praticamente “um pedacinho da Toscana” para levar pra casa, com toques de especiarias e ervas regionais. “A arte de recriar o aroma de uma cidade não consiste em sobrecarregar uma única nota, mas em adicionar essa nota como uma nuance em uma fórmula mais complexa”, diz Villoresi.
Outros hotéis italianos também entraram nessa dança de aromas, como o Hotel de Russie, em Roma, que criou uma fragrância exclusiva em parceria com a premiada perfumista Laura Bosetti Tonatto (responsável por desenvolver até mesmo uma coleção particular de perfumes para a falecida Rainha Elizabeth II).
Enquanto isso, o aroma amadeirado dos ambientes públicos do Majestic Barcelona Hotel & Spa, adorado pelos hóspedes ao longo de seus mais de 100 anos de história, deu origem a um perfume exclusivo, 100% produzido na Espanha: o Musc Éternel Cologne Absolue, composto de 92% de ingredientes naturais e com notas de bergamota, sálvia, cassis, almíscar e cedro. Com embalagem feita de madeira sustentável certificada pelo FSC, a elegante fragrância unissex homenageia o contínuo esplendor e estilo de vida mediterrâneo da cidade espanhola.
Em Nova York, o The Carlyle, a Rosewood Hotel se uniu à perfumaria americana D.S. & Durga para lançar o Eau de Parfum The Carlyle, com o aroma dominante de madressilva, marca registrada dos ambientes do estabelecimento há mais de quatro décadas. Em Paris, o Le Bristol chamou o perfumista Jean-Michel Duriez para criar o Les Jardins du Bristol, perfume com lírio-do-vale, rosa, frésia e sândalo, que desperta rapidamente a memória de caminhar pelos 1.277 m² de jardins do hotel ao entardecer.
Essas fragrâncias criadas com exclusividade pela hotelaria se tornam cada vez mais uma parte fundamental das nossas memórias de viagem. Levar para casa esse “cheirinho de hotel” — em forma de perfume, de aromatizador de ambientes, de vela ou de sabonete — ainda nos ajuda a manter vivas essas lembranças por muito mais tempo.
No caso da minha viagem ao Caribe, reativo essas memórias tão felizes e relaxantes cada vez que acendo a vela perfumada que trouxe do Cheval Blanc St. Barth no meu living. Mesmo vivendo em uma metrópole barulhenta e agitada, se eu fechar os olhos e respirar fundo, juro que quase dá para ouvir o barulhinho do mar…

























