Esse ano troquei o céu azul, o agito e o calor da minha cidade amada, o Rio de Janeiro, pelo clima bem menos carnavalesco de… Londres. Cidade que, graças aos cinco anos em que me dividi entre Brasil e Londres, segue tendo ares de casa para mim.
Tudo começou porque fui convidada pela King’s Art Business Society (Kings College London) para compartilhar sobre a minha transição de carreira, jornada e visão por detrás da minha MHSTUDIOS, com alunos da faculdade e, eu que de boba não tenho nada, aproveitei para esticar alguns dias nessa cidade que eu adoro.
Frequentemente me pedem dicas de Londres e, inevitavelmente, acabo enviando a mile long list. Ora, Londres é uma cidade tão grande que cada bairro carrega sua própria energia, seu estilo, sua dinâmica, a ponto de parecerem pequenas cidades dentro da cidade. Cosmopolita talvez seja a palavra que melhor a defina e, justamente por isso, apesar da lista de dicas ser sempre extensa, eu tenho constantemente a sensação de que ela é incompleta. E, de fato, ela é. Londres muda o tempo todo. Abrem coisas novas o tempo inteiro.
Ainda assim, quero destacar três lugares novos que visitei nessa última viagem e que gostei bastante. Mas, ao invés de simplesmente “despejá-los” aqui, vamos um por vez, assim consigo falar de cada um com mais detalhes. Off we go!
Dove
O Dove é um restaurante relativamente novo em Londres e carrega a assinatura do chef Jackson Boxer, nome conhecido por sua abordagem direta, sem afetação e por trabalhar ingredientes excelentes com precisão e conforto. (Ele já tinha chamado atenção com o Orasay no mesmo endereço, antes de transformar o espaço no Dove.)
O ambiente segue exatamente essa lógica: nada de luxo ostensivo, nada que distraia do que importa. Mesas super próximas (!), luz baixa e aquela sensação de estar num lugar que quem sabe, sabe. Pequeninho, decoração simples, descolada, de luz mais baixa. Adoro! Antes de ir vi bastante matérias falando do hambúrguer feito com capa de contrafilé maturada por 50 dias com queijo gruyère, feito em quantidade limitadíssima, mais especificamente 10 por noite. Virou quase um mito urbano justamente por ser limitado e não anunciado de forma espalhafatosa: quem chega sabendo, chega cedo. Ou seja, se esse for seu desejo, chegue cedo e peça logo porque acaba.
Acabou antes de eu conseguir pedir o meu, mas tudo bem, porque comi entradas maravilhosas: o “Fried Bonito, Burrata & Mortadella Pizzette”, cuja massa me lembrou demais a massa de “torta frita” que minha irmã Carol fazia para mim. Comi também o “Black Tomatoes, Sour Cream & Chilli Crisp”, que estava uma d-e-l-í-c-i-a, uma explosão de sabor e spicy! De principal pedi o Grilled Bavette Steak, Smoked Bone Marrow & Morels. A carne estava super macia, ponto perfeito e muito saborosa.
Queria muito ter provado alguma sobremesa, mas a essa altura eu já estava para lá de satisfeita. Fica mais esse incentivo para voltar. O tipo de restaurante que não quer impressionar e, exatamente por isso, impressiona.
V&A Storehouse
Eu poderia escrever um texto só para ele, e olha que ele nem abriu por completo ainda. Explico: o V&A East Storehouse é, na prática, uma inversão radical da lógica tradicional de museu. Em vez de mostrar apenas uma seleção curada de objetos “dignos de exposição”, ele abre ao público o que sempre ficou escondido: o acervo em estado bruto, vivo, em trânsito. Tudo exibido como se fosse um grande bastidor de curiosidades organizado para visitação, inclusive com a experiência “Order an Object”, em que você pode reservar com antecedência para ver de perto itens específicos.
São milhares e milhares de peças: moda, design, arte, mobiliário, cenografia, objetos do cotidiano, organizadas como um grande arquivo visitável, onde o visitante caminha entre prateleiras, gavetas, estantes e bastidores. Você caminha inclusive pelas áreas de restauro e vê funcionários trabalhando!
Mas, ainda não está tudo pronto no V&A East: partes do conteúdo ainda estão em fase de desenvolvimento e instalação, inclusive algumas áreas expositivas que serão expandidas conforme o acervo é catalogado e preparado para acesso público. Além disso, o projeto maior do V&A East inclui também o V&A East Museum, um museu tradicional com coleções mais completas, que está previsto para abrir em 2026, provavelmente na primavera.
Um dos destaques que já está funcionando dentro do Storehouse é o Centro David Bowie, um espaço dedicado ao vasto arquivo do artista britânico, com mais de 90 mil itens que abrangem suas roupas de cena, instrumentos, letras originais escritas à mão, fotografias, manuscritos, figurinos icônicos como os de Ziggy Stardust e peças raras do seu processo criativo.
Localizado em Stratford, longe do eixo turístico óbvio de Londres, o V&A East faz parte de um movimento maior de descentralização cultural da cidade, um esforço consciente de levar instituições, investimento e relevância para além do circuito tradicional de museus do centro e do oeste.
Vale observar que há quem diga que a Londres criativa dos artistas já não está mais exatamente em East London, como esteve nos anos 2000 e 2010. Muitos artistas, estúdios e mentes criativas começaram a migrar para o oeste de Londres, ocupando áreas antes menos óbvias como Shoreditch, Hackney, Bethnal Green, atraídos por galpões maiores, aluguéis relativamente mais possíveis e uma certa liberdade que o east perdeu ao se tornar vitrine.
O V&A East parece nascer exatamente nesse momento ambíguo: institucionalizando o East ao mesmo tempo em que a criatividade independente se move, como sempre fez, para onde ainda há espaço, silêncio relativo e margem para experimentação. Ainda em fase de abertura gradual, o espaço já dá uma ideia muito clara do que vem por aí: menos reverência silenciosa, mais curiosidade ativa. Você não entra para “ver obras-primas”, entra para entender como um museu pensa, guarda, classifica e constrói memória.
Caminhar pelo V&A Storehouse é como se você tivesse acesso ao “por trás do palco” da memória cultural de Londres e, de alguma forma, assumindo que a cidade está em constante mutação. E que cultura, também se constrói fora dos lugares onde aprendemos a procurá-la.
Mr Porter
Uma antiga hostess do Chiltern Firehouse, aka o bar mais legal de Londres e impossível de entrar se você não for habituée, está fazendo o PR desse restaurante — enquanto o Chiltern passa por reforma após o incêndio — e, então, o nome do Mr Porter começou a circular entre amigos meus. Comi super bem e normalmente não cogitaria um restaurante de carne para ir à noite! Mas o restaurante é o que chamam de “ladies steakhouse”: uma releitura que desafia o arquétipo masculino tradicional, com um conceito mais leve na atmosfera, mais enxuto na forma e assumidamente elegante.
Fun fact: eu e meus irmãos caçoávamos da nossa irmã Duda que, quando morava em Londres, sempre que perguntávamos uma dica de restaurante, tinha dificuldade de pensar rapidamente em nomes… em Londres! E, como o sarro impera na nossa família, rapidamente dominamos a narrativa e passamos a dizer que ela só ia na mesma “ês-tei-quê háu-zy”, para debochar da brasileira que sai do Brasil para seguir comendo carne em restaurantes de decoração duvidosa, ultrapassada e incitadora de comportamentos animalescos (haha), sem conhecer coisas novas. O que não é nada verdadeiro sobre ela, mas a diversão era fingir que sim.
O Mr Porter London marca a estreia no Reino Unido da steakhouse nascida em Amsterdã, criada pelo aclamado estúdio de design Baranowitz + Kronenberg. O ambiente é socialmente envolvente e sensorialmente rico. É realmente uma steakhouse, mas… sem cara de steakhouse. Reimaginada como um mundo subterrâneo, quase cinematográfico. Você entra por uma discreta porta de cobre na Park Lane, que passa totalmente despercebida até pelo turista mais atento, e desce uma escada em espiral até um espaço que é bem… sexy. Pois é. Quem diria. Uma steakhouse sexy.
Comida muito boa, ambiente bem pleasing, música que começa a tocar mais alto e… ai, meu Deus, que medo dele virar um Amazonico! Lembro de quando ele abriu na Berkeley Square, em 2019, e pouco mais de um ano depois, eu pessoalmente, já não cogitava jantar lá. Ficou demasiado flashy. Torço para que o Mr Porter não se vulgarize e que essa minha dica não fique obsoleta. A ver.



























