Seus projetos recentes incluem os interiores do Desert Rock e as suítes do Shebara, dois dos hotéis mais impactantes do mundo.
Com sua herança italiana e base entre Toronto e Milão, o designer Paolo Ferrari fundou o Studio Paolo Ferrari em 2016, e em menos de uma década, construiu um estúdio de design cujos projetos — ricos em contexto, refinamento e orientados pela atmosfera do lugar onde se inserem — atraíram Raffles, Four Seasons, LVMH, Red Sea Global, Sanlorenzo Yachts, Frank Gehry e Zaha Hadid Architects. conquistaram nove prêmios em um único ciclo, tais como Gold Key, Ahead Mea, Interior Design Best of Year, Frame Awards e Identity Design Awards, além do título de Designer do Ano da Boutique Design em 2025. Sua linha de mobiliário, Editions Paolo Ferrari, é produzida artesanalmente no Canadá. O estúdio funciona em uma antiga fábrica da IBM no West End de Toronto e em um segundo espaço inaugurado em 2025 no bairro Navigli, de Milão. Na cidade, Ferrari participou do Fuorisalone 2026, parte da exposição Materiae, da Interni.
Logo depois da feira de Milão, conversamos sobre viagens, inspirações, carreira e gostos. Os melhores trechosestão na entrevista a seguir.
Que tipo de viajante e designer você é: planeja tudo com antecedência ou se perde de propósito em busca de inspiração?
Essa é uma pergunta interessante, porque a forma como viajo e o que busco nessa experiência mudou com o tempo. Antes, eu planejava tudo. Agora, não planejo nada. Abrir mão da estrutura permite uma presença diferente. As coisas se desdobram em vez de serem perseguidas. Deixa de ser uma questão de roteiros ou pontos turísticos e passa a ser sobre a impressão de um lugar. Como a pessoa se sente. É isso que continua influenciando cada vez mais o meu trabalho. Chega-se a um ponto criativo em que você se interessa menos por encontrar inspiração ou referências dentro do contexto do seu trabalho — a inspiração se torna mais nebulosa, mais abstrata. Quando iniciamos um novo projeto, passo um tempo pensando no que estamos perseguindo e, mais importante, em como devemos nos sentir. Isso se torna a âncora.
Existe uma cidade que nunca te decepciona. Qual é e por que ela sempre fascina?
Há muitas cidades às quais retorno, mas uma que redescobri é Veneza. Para mim, há dois lados nessa cidade. Existe a versão lotada e comprimida que a maioria das pessoas encontra e, também, existe uma cidade completamente diferente. A apenas algumas ruas dos pontos turísticos, a cidade muda. Torna-se incrivelmente serena, e a mudança pode ser imediata. O que acho fascinante é essa dualidade. A capacidade de um lugar de abrigar, ao mesmo tempo, intensidade e tranquilidade. Volto lá pelos museus, pela Biennale, pelos cicchetti do fim de tarde, mas, acima de tudo, pela experiência de percorrer os canais
Seu destino de viagem favorito, aquele ao qual você retorna e onde nunca perde nada, qual é e por quê?
Paris é uma das cidades às quais retorno sempre. Há algo nos lugares que parece suspenso no tempo. Vivo e trabalho entre Toronto e Milão e passo muito tempo em Nova York. Percebo que, quando viajamos, frequentemente buscamos o contraponto. Há algo mágico no equilíbrio entre energia e lentidão que torna Paris tão especial. É uma cidade que te convida a flanar — e isso em si já é toda a alegria. A expressão italiana la dolce far niente traduz bem essa “doçura de não fazer nada” — a permissão de simplesmente estar em um lugar sem exigir nada dele. A recusa da urgência e o abraço do tempo que desacelera
Há algum país que você ainda não visitou e sempre quis conhecer?
Adoraria percorrer a Índia, especialmente Jaipur e Kerala. É um lugar em que tenho pensado há muito tempo. A verdade é que não quero fazer essa viagem de forma casual. Ela exige tempo e certo nível de consideração. Um equilíbrio entre cidade e paisagem, intensidade e serenidade. Viajo com frequência e é fácil retornar a lugares familiares. Viajar para a Índia é algo que quero vivenciar como se deve, sem concessões.
Você construiu espaços que as pessoas sonham em visitar. Quando viaja por conta própria, o que está realmente buscando?
Viajar por conta própria é sobre ampliar minha perspectiva. Estou em busca do impulso lento de experiências que genuinamente ficam conosco. Estou muito mais atento à sutileza, mais do que nunca. Quando viajo a título pessoal, é sobre encontrar espaço para me reiniciar. Gosto de me mover entre extremos. A energia de uma cidade e o silêncio de algo mais remoto, mais conectado à natureza. Esse contraste é importante. No melhor dos casos, trata-se de buscar experiências em que o tempo desacelera e você consegue realmente saborear cada momento. O que busco, creio, é uma qualidade de consciência mais aguçada, mais presente, e um ritmo mais contemplativo.
“I think I’m chasing a quality of heightened awareness and a quality of slowness”
Melhor viagem, hotel e refeição da sua vida. Onde, o quê e com quem?
Uma das experiências hoteleiras mais memoráveis foi justamente ficar no Desert Rock, em janeiro de 2025. Foi muito significativo, tanto pessoal quanto profissionalmente, um projeto do nosso estúdio que começou em 2020. Ficar em uma obra dessa escala, que você passou tantos anos projetando, é uma experiência e um contexto verdadeiramente extraordinários. Ficamos cinco noites em uma das Hanging Valley Suites, com vista para o resort. Estava lá com minha esposa e sócia nos negócios, Courtney Lauderdale, e nossa grande amiga, a fotógrafa Ema Peter (que fez algumas das imagens que ilustram esta entrevista). Trabalhamos continuamente, dia e noite, mas a experiência de acordar naquele espaço a cada manhã nunca perdeu seu impacto.
Quanto à refeição, há alguns anos Courtney e eu passamos uma tarde em Torcello, que é uma pequena ilha tranquila da lagoa veneziana, bem afastada do centro de Veneza. Inaugurado em 1935, o Locanda Cipriani tem sido há muito um refúgio reservado para artistas e escritores. Fomos almoçar e a experiência foi uma das mais memoráveis. Ao chegar, você é recebido pelo aroma de fumaça de lenha, e o almoço é servido no jardim. Poucas mesas, nada excessivo. Um completo contraponto a Veneza. Há algo em seu contraste — a formalidade do serviço dentro de um contexto tão quieto e quase doméstico. Ficamos por horas. Foi perfeito.
O que você teme que desapareça das viagens e do design?
Preocupo-me com um crescente senso de homogeneização global. Muito do que está sendo construído começa a se misturar, e com isso as experiências correm o risco de se tornarem indistinguíveis. Viajar, em seu melhor estado, deveria ser para expandir sua percepção. Há um risco real de que muitos lugares estejam sendo definidos por uma espécie de mesmice. Para mim, as coisas precisam de uma razão para existir. O design é uma oportunidade de ampliar a qualidade de um lugar, conectando passado e presente com raízes no contemporâneo. Criando algo específico, que não poderia existir em outro lugar.
Você construiu um bar dentro de uma torre da Zaha Hadid, um resort dentro de uma montanha e orbes flutuando sobre o Mar Vermelho no Shebara. Quando você entra em um hotel ou espaço residencial, o que busca sentir?
Quando entro em um hotel ou espaço residencial, quero sentir a intenção por trás do que foi construído. Grandes espaços falam com você. Revelam algo — e, em seu melhor estado, revelam algo em você. São esses espaços que podem mudar a percepção. É esse equilíbrio entre conforto, familiaridade e algo novo. Muitas vezes não é algo que você possa definir imediatamente, mas quase inexplicavelmente esses espaços ficam com você. Quando um espaço é moldado com real intenção, essa qualidade é sentida.
O que um quarto — em qualquer lugar — precisa ter para que você durma bem?
Quando pensamos em dormir bem, tudo se resume à qualidade. A qualidade do colchão, do travesseiro, dos lençóis. Essas nuances realmente fazem diferença. Grandes hotéis entendem isso e levam esses detalhes muito a sério. É algo pelo qual ficam obcecados. Outros fatores incluem temperatura, atenuação sonora e luz. Controles intuitivos, vidros de alta qualidade e isolamento acústico adequado, bloqueando o som da rua e entre os quartos. A luminosidade é o outro fator crítico. Escurecimento total em relação à claridade exterior e iluminação interna cuidadosamente concebida que permita circulação noturna sem perturbação. Individualmente, essas são decisões sutis. Juntas, definem se um quarto proporciona o descanso real.
O Desert Rock está incrustado na montanha, com cada quarto lapidado na rocha bruta e com detalhes em bronze fundido. Qual foi sua visão desde o primeiro momento em que observou aquele local.
Desde o início, ficou claro que o projeto precisava honrar o lugar, mantendo as coisas em sua essência mais pura, com o mínimo de intervenção. Uma extensão contínua de seu contexto. Passamos muito tempo conceitualizando como expressar com mais intensidade a essência do sentido de lugar, evitando o óbvio. O processo em si conecta o trabalho ao deserto, não por imitação, mas por ressonância. É nossa homenagem silenciosa ao sentido de lugar e um lembrete de que os menores gestos frequentemente carregam o maior peso.
O Shebara, com suas 73 esferas espelhadas sobre o Mar Vermelho, certificação Leed Platinum e nove prêmios internacionais, não se parece com nada mais no planeta. Quando os hóspedes descrevem como se sentiram lá dentro, que surpresas eles compartilham?
O Shebara foi um projeto enraizado na invenção. Quando os hóspedes entram nas villas sobre a água, a primeira sensação é o horizonte. A piscina parece se dissolver no mar, e a fronteira entre interior e exterior começa a desaparecer. Há uma continuidade na experiência. O que mais surpreende as pessoas são os momentos que não são imediatamente claros. O bar em balanço de aço polido, por exemplo, parece uma única superfície contínua. Não há pistas visíveis sobre sua função. Apenas dois botões discretos. Quando acionados, as grandes portas estilo gullwing se abrem e a função do bar se revela pelo movimento. A integração da automação cinética o transforma de objeto em experiência. Torna-se um momento de encantamento. O que ouvimos consistentemente é que a experiência parece diferente de tudo que já vivenciaram antes.
Para você, qual é a visão errada das pessoas sobre luxo?
O luxo pode estar excessivamente focado em expressar status. Materiais que carregam raridade têm valor inerente, mas isso por si só não define luxo. Em sua essência, o luxo é sobre qualidade. O peso de um garfo, a fluidez do serviço, o conforto calibrado de um móvel. Um compromisso com a qualidade absoluta, expresso com discrição e consistência.
O que a Itália faz por você que nenhum outro lugar faz? E como o fato de ter um estúdio em Milão influencia sua vida cotidiana?
A Itália oferece uma âncora para minha herança. Minha família tem raízes profundas lá, e há algo inerentemente reconfortante em retornar a um lugar intrinsecamente conectado a quem você é. Falávamos italiano em casa e viajávamos para lá frequentemente quando crianças. Ao mesmo tempo, a Itália oferece um contraponto à minha criação no Canadá. Nosso estúdio em Milão é uma extensão do nosso estúdio principal. Temos uma equipe incrivelmente talentosa de arquitetos de interiores e designers lá, o que expandiu nosso alcance como prática criativa. Mais da metade de nossa equipe em Toronto vem de fora do Canadá, e essa diversidade de bagagem cria uma abertura natural ao trabalhar globalmente. Milão reforça essa curiosidade. Minha parceira e eu retornamos à Itália com frequência. O tempo no campo, no estúdio e nas colaborações em andamento com fabricantes de móveis, artesãos e pedreiras tornou-se uma parte natural do nosso ritmo.
Toronto é frequentemente subestimada. O que essa cidade oferece a um designer que Paris, Milão e Nova York não oferecem?
Nosso estúdio principal está baseado em Toronto, que é um lugar excepcional para construir uma prática criativa. Ao longo da última década, a cidade tem evoluído. Há uma corrente criativa subterrânea que ainda parece bruta, e é isso que a torna atraente. Quando você pensa em cidades como Nova York, Paris ou Milão, suas identidades frequentemente estão ligadas a eras definidoras específicas. Momentos em que a percepção da cidade mudou, moldada por garra, criatividade e invenção. Toronto parece estar passando por esse processo. Há uma abertura nela. Menos estática e menos definida. Para um designer, essa qualidade é incrivelmente valiosa. Permite a exploração e o surgimento de novas ideias.
Ouvi dizer que você viaja com um Moleskine. O que você está desenhando ou escrevendo nele agora?
Agora estou esboçando ideias para uma nova coleção de móveis. Sou o tipo de designer que precisa colocar as coisas no papel. O esboço é uma parte importante do meu processo. Não se trata de desenhos acabados, mas de capturar ideias brutas. Colocar algo no papel o mais rápido possível. Há uma diretividade no desenho que parece essencial à forma como trabalho.
Fora do estúdio e dos projetos, quais são seus passatempos favoritos na vida pessoal?
Passo o máximo de tempo que posso na natureza. Caminhadas, em particular, são algo que repito frequentemente. Elas têm uma forma de me enraizar, de criar espaço para pensar com mais clareza. Há uma simplicidade nisso que considero essencial.
Qual é a sua visão para o futuro da hospitalidade de luxo, com suas próprias palavras, além das tendências?
O mundo da hospitalidade de luxo está evoluindo. O futuro será definido por experiências que mudem a forma como vemos e compreendemos o mundo. À medida que a tecnologia se torna cada vez mais incorporada às nossas vidas, o papel da hospitalidade se tornará ainda mais relevante. Buscaremos experiências que criem um senso de admiração e despertem o sublime, ao mesmo tempo que nos enraízam e nos reconectam a algo mais elementar. Com o tempo, o setor assumirá uma responsabilidade maior. A sustentabilidade irá além da expectativa, em direção a algo mais ambicioso. Falando com otimismo, minha esperança é que o luxo se torne net-positive. O luxo como um ato de bem.



























