O selo Made in Italy já não carrega a mesma garantia automática de outras décadas. À medida que parte da produção de grandes grifes mi grou para a Ásia, o rótulo que era sinônimo de tradição perdeu parte da sua nitidez.

Gigantes do tal luxo mantêm criação, direção e narrativa italianas, mas fragmentam a cadeia produtiva em diferentes geografias, respondendo à escala que o mercado global passou a exigir. Ainda assim, o soft power do bel paese permanece intacto porque ele nunca esteve apenas no lugar onde a peça é costurada, mas na cultura que molda a forma como ela é pensada. História, elegância, know-how têxtil acumulado por séculos e, sobretudo, uma relação muito particular com o prazer de viver continuam sendo atributos profundamente italianos.

Em tempos de fast-fashion e de uma busca cada vez maior não pelo diferencial, mas pelo artesanal e autoral, entram em cena casas que operam em escala menor, mantêm produção local e preservam oficinas, teares e curtumes regionais. Não produzem coleção para responder à tendência, nem lançam novidade para alimentar algoritmo; criam a partir do tecido, do corte, em nome do uso real e do bem durável. O fatto a mano aqui não é narrativa, é fundamento da cabeça aos pés.

A fachada da Fortela, marca que funciona como um arquivo têxtil aplicado ao presente. Fortela/Dimitri Coste

A Fortela nasce desse princípio pelas mãos de Alessandro Squarzi. Antes de existir como marca, já existia como coleção. Squarzi, que tem loja própria em Milão e forte presença online, passou décadas reunindo roupas militares, peças utilitárias e jeans antigos e hoje reinterpreta um estilo que já provou sua lógica no tempo. A Fortela funciona como um arquivo têxtil aplicado ao presente. Nada parece figurino vintage, mas tudo carrega a precisão de quem estudou o passado peça por peça.

A Capalbio leva o nome da pequena vila medieval próxima ao mar, na região da Maremma, na Toscana. Ali, o verão impõe uma elegância natural: luz forte, calor constante e vida ao ar livre. As roupas da marca parecem pensadas para esse cená rio específico. Linhos, algodões leves, camisas abertas, calças descomplicadas e cores que repetem a paisagem. Não há excesso porque o clima não permite. A sofisticação vem da adequação ao território.

A Rakki é discreta fora da Itália, mas muito respeitada no país por quem conhece a tradição das grandes malhas italianas. A marca bolonhesa trabalha com teares tradicionais da Emilia-Romagna e seleciona lãs de prestigiadas fábricas locais, realizando cada etapa em colaboração com artesãos históricos. Suas peças carregam um gosto vintage cult que remete às malhas icônicas do passado, recriadas com técnicas antigas de tricô, e evocam o imaginário associado a figuras como Steve McQueen, James Dean e Marlon Brando.

Jaqueta de lã da Capalbio, que leva o nome de pequena vila medieval da Itália. Capalbio/Marco Bucco

A Astorflex é um caso típico de continuidade familiar. Fundada em 1820 na Lombardia, hoje está na sexta geração da família Travenzoli. Os sapatos são feitos com couro curtido de maneira vegetal, solas naturais e colagem à base d’água. O processo é lento porque respeita o tempo do material. O couro descansa, a forma respeita o pé e o sapato melhora com os anos de uso.

Em Prato, cidade nos arredores de Florença ligada à produção de fios desde a Idade Média, o Maglificio GRP opera desde os anos 1970 produzindo para outras marcas e para a própria etiqueta, mantendo os mesmos teares e pontos ao longo das décadas. O diferencial não está na novidade, mas na regularidade. As golas não deformam, os punhos não cedem, o fio mantém a estrutura.

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A Velasca nasce já no século 21, em Milão, pelas mãos de Enrico Casati e Jacopo Sebastio. A proposta era simples: vender sapatos feitos à mão eliminando intermediários. A empresa trabalha com oficinas familiares em Montegranaro, na Marche, uma das regiões mais tradicionais do calçado italiano. Os modelos recebem nomes em dialeto milanês como forma de afirmar pertencimento cultural. O desenho é clássico, a construção se mantém rigorosamente artesanal e a relação entre quem faz e quem compra é direta.

A Manifattura Ceccarelli, da Úmbria, parte do vestuário de trabalho e de caça. Giuliano Ceccarelli passou anos produzindo para a Filson antes de criar a própria marca. As peças usam algodão encerado britânico, lã italiana pesada e técnicas antigas de impermeabilização e costura reforçada. São roupas feitas para enfrentar clima, umidade e desgaste real. Parecem antigas já no primeiro dia porque foram pensadas para envelhecer bem.

Os detalhes da malha de tricô Rakki. Rakki/ Foto divulgação

O que une todas essas marcas não é estilo, mas método. Tecidos escolhidos pela função, modelagem pensada para o corpo em movimento, produção local e tempo de fabricação respeitado. Num momento em que a roupa se tornou descartável, essas casas seguem produzindo como se vestir ainda fosse algo para acompanhar a vida inteira. Talvez seja isso que hoje pareça raro.

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