Veneza volta a ser o grande canal das artes numa edição em que a morte da curadora da Bienal amplia a proposta de olhar o mundo pelos seus tons mais sutis, numa celebração da memória de Koyo Kouoh e das vozes que sempre falaram a partir das margens.

Por mais que o mundo e o mercado das artes tenham alterado o sentido e a percepção do criativo, permanece a expectativa de que a Bienal de Veneza venha redefinir conceitos e entendimentos sobre processos artísticos.

Nos últimos anos, o evento parecia velejar sem grande recado, procurando afirmar seu lugar no mapa da arte global enquanto o circuito internacional se pulverizava entre feiras, bienais satélite e plataformas digitais.

Mas esta edição chega com uma intensidade que ninguém esperava, atravessada pela ausência da curadora suíço-camaronesa Koyo Kouoh, uma das vozes mais influentes da arte contemporânea africana e global, cuja morte em 2025, aos 57 anos, transformou esta bienal numa espécie de legado final.

Mirjam Kluka

Kouoh, fundadora da Raw Material Company e ex-diretora do Zeitz Mocaa, na África do Sul, sempre colocou no centro narrativas e artistas historicamente silenciados. Sob o tema “In Minor Keys”, a proposta concebida por ela para esta Bienal, que vai de 9 de maio a 22 de novembro, sugere olhar o mundo através de margens, sutilezas e ressonâncias que raramente ocupam o protagonismo, confrontando públicos e instituições com questões que escapam do conforto das narrativas dominantes.

A exposição central, apresentada entre o Arsenale e o Giar dini, parte de uma ideia simples e potente: olhar o mundo pelos seus tons mais quietos, poéticos e pouco representa dos, reunindo artistas que historicamente falaram a partir de lugares menos visíveis. Para os pavilhões mais aguarda dos, alguns nomes que já foram anunciados direcionam o foco para tensões e diálogos contemporâneos, como Yto Barrada representando a França e Lubaina Himid no pavilhão britânico.

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A participação do Qatar com um novo pavilhão no Giardini, algo que não acontecia desde a Coreia do Sul, em 1995, sinaliza o movimento de estados-nação em direção a uma presença mais visível nos circuitos institucionais da arte. O pavilhão do Brasil traz o projeto “Comigo Ninguém Pode”, com curadoria de Diane Lima e participação das artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão.

Suas obras lidam com memória, corpo e território e levantam a pergunta sobre o que significa narrar e expor histórias diversas num cenário global ainda marcado por desigualdades e hierar quias culturais. Depois de manter seu pavilhão fechado na edição anterior como forma de protesto contra a guerra em Gaza, Israel confirma presença em 2026, reacendendo apelos de boicote por parte de artistas e curadores e soman do novas camadas às tensões políticas já em pauta nesta Bienal, em que arte e mundo real seguem entrelaçados de forma inevitável.

O legado final de Koyo Kouoh, na Bienal de Veneza 2026. La Biennale di Venezia/ Andrea Avezzu

Fora do eixo oficial, a Sereníssima se transforma nova mente em território expandido de arte. Eventos colaterais ocupam palácios e igrejas, como Re-Stor(y)ing Oceania, no Ocean Space; Bangkok Biennale, no Palazzo Smith Mangilli Valmarana; e Liminal, de Pierre Huyghe, na Punta della Dogana. Instalações independentes surgem em diferentes pontos da cidade, como a escultura de Ash Arder construída com ornamentos de capôs de Cadillac, as peças de vidro soprado de Sula Bermudez-Silverman e as figuras de cera de Andrea Fraser. Entre as exposições paralelas mais comentadas está ainda a mostra dedicada a Marina Abramović na Gallerie dell’Accademia.

Se a Bienal de Veneza já foi vista como a grande máquina de reafirmação das hierarquias culturais ocidentais, a edição de 2026 indica que essa máquina pode ser desmontada peça por peça. A ênfase está nas margens, nas sensibilidades muitas vezes desconsideradas, no potencial subversivo do silêncio transformado em manifesto.

Mirjam Kluka

O resultado não é uma exposição confortável, mas uma experiência que pede atenção e disposição para atravessar camadas de significa do. Marcada pela ausência de sua curadora e pela presença multiplicada de vozes diversas, a Bienal se torna um gesto vital, um convite para ouvir aquilo que, até agora, foi ignorado e, ao fazê-lo, provoca o mundo da arte a expandir sua própria ideia de relevância.

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