Enfim chegou o meu momento de pisar no Atacama. A primeira tentativa, no entanto, foi lá em 2012, e talvez seja por aí que essa história precise começar. 

Junto à Teresa Perez (pois é, sou consistente com as coisas de que gosto, e essa relação é de longa data), organizamos uma viagem de sete dias pelo deserto mais seco do planeta, com hospedagem no hotel Awasi. Mas dias antes do embarque, o universo decidiu que eu deveria ficar mesmo no Rio de Janeiro, minha cidade natal e onde eu morava na época.

Uma chuva torrencial, dessas que não acontecem nem uma vez por século, havia caído sobre o Atacama. O fenômeno, quando acontece, tem nome: invierno altiplánico, esse momento raro em que as chuvas de verão do altiplano boliviano descem sobre o norte do Chile e transformam o deserto mais antigo da Terra em algo que ninguém esperava ver ali. 

Os passeios estavam todos interditados. O hotel, em uma postura que considero ainda hoje extremamente cuidadosa, havia montado uma programação alternativa para os hóspedes. E oferecia, a quem preferisse, o reembolso integral. Apesar de não mais exercer, eu advogava na época e sabia muito bem o que significa um evento de força maior em relações comerciais. O hotel não devia nada a ninguém. E ainda assim escolheu agir assim, com a generosidade dos lugares que sabem o que estão oferecendo. 

Maria Helena em meio ao deserto. Maria Helena Pessôa de Queiroz

Eu pedi o reembolso. Tinha escolhido aquele hotel a dedo e admirava a delicadeza do plano B, mas não via sentido em fazer aquela viagem sem poder romper as paredes do hotel para ver com meus próprios olhos aquela imensidão. E assim a viagem não aconteceu. 

Mais precisamente em janeiro de 2026, a Teresa Perez, que já conhece bem o meu modus operandi, me ligou para saber se eu já tinha ido ao astrólogo e se já tinha as coordenadas das estrelas para o dia do meu aniversário. Eu ainda não havia ido à consulta, mas disse que estava fazendo reza forte para alguns destinos, e o Atacama era um deles. Chegou o dia da consulta e, contrariando a tese piadista da minha família de que o meu astrólogo deve ser sócio investidor da Teresa Perez, ela me respondeu: “São Paulo.”  Aquele era o momento perfeito, e ninguém podia me dissuadir. Nem mesmo Taurus (aka meu irmão e COO da MHSTUDIOS).

“Mas, Lilica, dá uma olhada aí, Atacama não funciona, não? Olha, Atacama é bom, mas passar em São Paulo será maravilhoso para você.” 

“Ó céus, ó vida. Como ignorar esse ‘maravilhoso’”? 

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Pensando aqui com meus botões: e se eu viajasse no dia seguinte ao aniversário? Depois de tantos anos viajando para onde os astros me mandavam, eu não estava pronta para ficar em casa na semana do meu aniversário. No dia seguinte, às oito da manhã, finalmente, a tão desejada e long overdue viagem para o Atacama. 

Hospitalidade andina

Quinze anos separam a quase viagem da viagem que de fato aconteceu e, ainda assim, lembro perfeitamente por que tinha escolhido o Awasi naquela época. Vou tentar explicar o porquê, ainda que de modo um tanto filosófico. 

Primeiro, sempre há a estética, mas não basta o hotel ter o melhor de tudo, ser bonito e conveniente. Precisa ter a essência local, o charme, me proporcionar a sensação de estar inserida na região. 

Descanso e aconchego também fizeram parte da viagem. Maria Helena Pessôa de Queiroz

E o Awasi, há quinze anos e, ainda hoje, me passava exatamente essa impressão. A atmosfera privada, pequena, com cara de casa de alguém local que tem apreço por estética e conforto. Algo intocado, secreto, ultradiscreto, é o tipo de lugar onde não dá para imaginar um produtor de conteúdo voraz se sentindo à vontade para fazer captação massiva, sacando espadas de luz e tripés. Se viva estivesse, com vontade de visitar o Atacama, tenho para mim que Carolyn Bessette escolheria esse hotel. 

A arquitetura do Awasi nasce de uma referência muito precisa. Doze quartos circulares construídos em adobe, pedra e madeira, com tetos cônicos de palha trançada à mão. As referências formais vêm de Tulor, aldeia de dois mil anos cujas ruínas ainda existem a poucos quilômetros dali, ao sul de San Pedro. Os artesãos locais passaram dois anos moldando à mão, um a um, os tijolos de adobe que erguem o hotel, secando-os ao sol no próprio terreno, exatamente como faziam seus antepassados. As paredes carregam tapeçarias indígenas e mantas de alpaca para as noites frias. Cada quarto se abre para um pátio privativo, que à noite vira um observatório natural, sob o céu mais limpo do planeta. 

No hotel, mal se cruza com outros hóspedes. Os funcionários falam com a gente sempre pelo nome, olham nos olhos, sorriem com brilho verdadeiro. A diferença que faz, na hospedagem, ser recebido por gente assim. 

Experiências gastronômicas no hotel não poderiam faltar. Maria Helena Pessôa de Queiroz

No aeroporto de Calama, dois companheiros de viagem já nos esperavam: Lorena e Mauricio. Lorena seria nossa motorista durante toda a estadia, Mauricio nosso guia. Esse é um dos grandes diferenciais do Awasi. Os passeios não apenas são privados, como acontecem sempre com o mesmo guia, o que cria conexão, permite que ele conheça as suas particularidades e desenhe visitas alinhadas às suas expectativas, aos seus desejos e, claro, ao seu ritmo.  

Uma observação que merece nota. Ainda no caminho do aeroporto para o hotel, perguntei a Mauricio de onde ele era (Valparaíso) e por que havia escolhido morar em San Pedro. Ele me contou que era jornalista. Logo descobri que falava francês, apertamos a tecla SAP e engatamos uma conversa. Não demorou para perceber que ele era um sujeito muito vivido, viajado, cheio de repertório, visão de mundo, cultura. O guia passa grande parte do dia com você, então faz muita diferença ter alguém com quem se consiga conversar e engajar de verdade.

Imaginário vs. realidade 

As paisagens do Atacama me impressionaram, claro. Mas o que mais me impressionou foi a diversidade entre elas. No meu imaginário, havia um deserto único, com salar, flamingos e os Andes ao fundo. Vi tudo isso. Vi os flamingos dançantes na Laguna Chaxa, parte da Reserva Nacional Los Flamencos, e descobri que três espécies vivem por ali, o flamenco andino, o chileno e o de James, todos se alimentando dos pequenos crustáceos que prosperam na água hipersalina do Salar de Atacama. Mas vi também paisagens completamente fora desse imaginário, e o que mais me surpreendeu foi entender como uma só região consegue oferecer cenários tão distintos entre si. 

Life on Mars? O visual impactante da Cordillera de la Sal. Maria Helena Pessôa de Queiroz

Há um vale onde me senti caminhando em Marte, e cantarolei baixinho “Life on Mars” enquanto pisava na Cordillera de la Sal, esse paredão de rocha sedimentar dobrada que um dia foi um lago salgado e que o tempo, o vento e os raros gestos de água esculpiram em formações que parecem feitas por mão humana. Não é exagero da imaginação local. A NASA usa este pedaço de terra como análogo de Marte para testar protótipos de seus rovers, justamente porque o Atacama é o que existe na Terra de mais parecido com o planeta vermelho. 

Há uma pequena curiosidade etimológica que o Mauricio me contou e adorei. O vale ao lado, hoje conhecido como Valle de la Muerte, na verdade era para se chamar Valle de Marte. Um padre belga, ao apresentar o lugar, foi mal interpretado por um chileno que ouviu “muerte” no lugar de “Marte”, e o nome pegou. O vale ficou Vale da Morte, mas o Marte sempre esteve ali, em segredo.

Há outra paisagem, no topo da cordilheira a mais de quatro mil metros de altitude, em que tudo na gente treme um pouco porque o ar está rarefeito e porque o cenário é simplesmente irreal. El Tatio, terceiro maior campo geotermal do mundo e o mais alto, com mais de oitenta gêiseres ativos, colunas de vapor branco subindo no contraste do amanhecer congelado. O nome em kunza, idioma quase extinto dos Likan Antai, povo indígena que habita este pedaço dos Andes há pelo menos mil e quinhentos anos, significa “o velho que chora”. A terra fervendo em pleno frio negativo, a respiração da gente virando vapor, que se confunde com o vapor que sobe do chão, o sol despertando sobre a fileira de vulcões, e aquele velho lá embaixo, soluçando há séculos.

Há ainda uma terceira paisagem que não estava no meu imaginário e que talvez tenha sido a mais surpreendente. Os Andes não são só rocha estéril. Em meio à altitude, surgem manchas de verde, os chamados bofedales, pequenas turfeiras altiplânicas onde a água aflora e sustenta uma vegetação rasteira que alimenta vicunhas e guanacos.

O roedor andino vizcacha flagrado durante o passeio. Maria Helena Pessôa de Queiroz

Foi ali, perto das Lagunas Miscanti e Miñiques, dois espelhos de azul profundo, a mais de quatro mil e cem metros, formados por atividade tectônica há vinte e dois mil anos e separados por um derramamento de lava entre eles, que vi as vizcachas pela primeira vez. As vizcachas são roedores andinos parentes das chinchilas, com a cauda longa e densa, orelhas redondas, e uma habilidade de camuflagem entre as pedras tão refinada que a maioria dos visitantes passa sem percebê-las. Mauricio me apontou uma e disse que dali ninguém costuma ver mais nenhuma. Eu vi todas. Contive os meus instintos de “Felícia”. 

E depois há o céu. Ah, o céu. O Atacama abriga os maiores observatórios astronômicos do planeta, Paranal, ALMA, La Silla, justamente porque a combinação de altitude, ausência de umidade, baixíssima poluição luminosa e estabilidade atmosférica faz dele o melhor lugar da Terra para olhar para fora. Mas os Likan Antai já sabiam disso muito antes do ALMA.

A relação ancestral deles com as estrelas, com a observação dos solstícios, com a cosmovisão andina que une a terra, a água e o cosmos em um único tecido vivo, é uma das camadas mais bonitas de tudo o que essa terra carrega. Andar pelo Atacama é andar sobre uma sobreposição de tempos. O vento que esculpe pedras hoje é o mesmo que esculpia há treze milhões de anos, quando este pedaço da Terra começou a secar e nunca mais voltou a se molhar de verdade. Daí o tamanho da exceção que foi a chuva de 2012. Daí a paciência geológica do lugar. 

Guanacos em meio aos bofedales. Maria Helena Pessôa de Queiroz

Para além das paisagens e pontos turísticos, meus highlights, sem ordem de importância foram: a arquitetura do Awasi; a hospitalidade familiar e tão curada; o pisco sour de rica-rica que o hotel preparava, esta erva aromática nativa do altiplano que a gente esmaga entre os dedos e cheira antes de tudo. 

Passamos três noites e eu poderia facilmente ter passado seis. Mas compromissos me chamavam de volta a São Paulo. E depois de esperar quinze anos para conhecer o deserto, preferi essas três noites a esperar o momento perfeito para uma estadia mais longa que talvez coincidisse com outra chuvarada rara. Today is all there is, né?

Quinze anos esperando, dois conselhos contrariados, três noites no deserto. Saí de lá com a certeza de que o Atacama, com toda a sua paciência geológica, tinha estado esperando por mim. Ou, mais provável, eu é que precisei de quinze anos para chegar pronta. Os astros que me digam. 

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