London Calling
A National Gallery, em Londres, prepara uma expansão ambiciosa com uma nova ala assinada pelo arquiteto japonês Kengo Kuma. Mais do que uma simples ampliação, o projeto revela uma mudança clara na direção do museu: abrir espaço para a arte dos séculos 20 e 21 e disputar atenção com instituições que já dominam esse terreno, como a Tate Modern e o Victoria and Albert Museum. Com conclusão prevista para 2030, a nova ala ocupará o terreno da St. Vincent House e deve alterar significativamente a dinâmica cultural da região de Trafalgar Square. Kuma, conhecido pelo uso delicado de madeira, luz natural e materiais orgânicos, parece uma escolha curiosamente sensível para Londres, cidade onde boa parte da arquitetura recente tenta convencer o público de que concreto cinza é personalidade. Ainda assim, a expectativa é alta. E com razão.
Transcrições
As autoras trans vêm ocupando um espaço cada vez mais central na literatura contemporânea, não apenas ampliando representatividade, mas produzindo algumas das obras mais inventivas dos últimos anos. Na Espanha, Alana Portero conquistou projeção com La Mala Costumbre, romance delicado e, ao mesmo tempo, brutal sobre identidade e sobrevivência nos arredores de Madri. Na Argentina, Camila Sosa Villada consolidou-se como uma das vozes mais importantes da literatura latino-americana recente com Las Malas e O Parque das Irmãs Magníficas.
Já Akwaeke Emezi, da Nigéria, põe em foco gênero, espiritualidade e autobiografia em livros como Água Doce, ampliando o alcance para além de qualquer etiqueta identitária. O movimento inclui ainda nomes fundamentais, como a norte-americana Torrey Peters, autora de Detransition, Baby, Imogen Binnie e do recém-lançado Stag Dance, finalista deste ano do Pulitzer, e a canadense Casey Plett, dona de narrativas tão melancólicas quanto afiadas. Mais do que tendência editorial, trata-se de uma transformação consistente do campo literário, onde experiências trans deixam de ocupar um lugar periférico para se tornarem força estética. A literatura agradece. O mercado editorial, atrasado como sempre, corre atrás.
Me, Myselfie and AI
Câmeras e gadgets voltados para criação de conteúdo vêm transformando a maneira de viajar. Dispositivos como Insta360 X3 e GoPro Max gravam em 360 graus, capturando tudo ao redor para que enquadramento, corte e narrativa sejam decididos depois, muitas vezes com ajuda de inteligência artificial. O resultado é uma espécie de caos visual organizado posteriormente por algoritmos: o usuário filma andando, girando, tropeçando ou simplesmente sem olhar para a câmera e, mais tarde, escolhe o melhor ângulo como se tivesse levado uma equipe inteira de filmagem nas férias. Recursos como estabilização automática, rastreamento de movimento e edição inteligente permitem gerar múltiplos conteúdos a partir de um único registro e adaptar vídeos para diferentes plataformas. Nunca foi tão fácil transformar um passeio banal num minidocumentário emocional sobre “vivências”. O problema é que talvez ninguém mais consiga simplesmente olhar a paisagem sem pensar em vertical, horizontal ou thumbnail.
Tempo Africano
A cozinha pan-africana começa finalmente a ganhar protagonismo no cenário gastronômico global, impulsionada por chefs da diáspora que reinterpretam tradições do continente sem cair na caricatura exótica que durante décadas dominou a visão europeia sobre a África. Em Londres, restaurantes como Ikoyi, estrelado pelo Michelin, trabalham especiarias da África Ocidental em pratos altamente técnicos. Outro exemplo na cidade é o Akoko, que aposta numa leitura elegante da culinária nigeriana e ganesa. Em Paris, o BMK Paris Bamako leva sabores do Mali para um contexto urbano e contemporâneo.
A onda também reverbera no continente. Em Acra, capital de Gana, o Tatale transforma ingredientes locais em pratos sofisticados sem perder identidade; em Lagos, novos restaurantes misturam tradição e experimentação com uma confiança quase paulistana. Depois de anos tratando cozinhas africanas como curiosidade antropológica ou buffet temático de hotel, o mundo gastronômico começa enfim a entendê-las como aquilo que sempre foram: complexas, diversas e deliciosas.
Made in Japan
Pequenas lojas independentes pela Europa vêm se consolidando como verdadeiros templos da moda japonesa, reunindo peças raras que dificilmente chegam ao circuito mainstream. Em Paris, Jinji e Beige Habilleur funcionam quase como santuários do denim e do workwear, com marcas como Kapital, orSlow e The Real McCoy’s. Em Madri, a Redcast Heritage tornou-se referência absoluta em jeans japoneses ao agrupar nomes como ONI Denim, Momotaro e Warehouse & Co.
Já em Londres, Son of a Stag, Rivet & Hide, Clutch Cafe e Trunk Clothiers oferecem o melhor do streetwear japonês com peças sem logos berrantes, sem collabs histéricas, e justamente por isso tão desejadas pela fauna hipster internacional. Entre as marcas mais cultuadas estão Doek, Visvim, Moonstar e Fullcount, todas movidas pela obsessão japonesa por técnica, durabilidade e detalhe. Mais do que lojas, esses espaços funcionam como pequenas resistências ao fast fashion e à moda descartável. Num mercado onde tudo parece feito para durar três stories, há algo quase radical em comprar uma camisa pensada para envelhecer bem.
La Donna é mobile
Marie-Louise Sciò, diretora criativa e CEO do grupo Pellicano Hotels, vem conduzindo uma expansão que reposiciona o idílio italiano para além dos destinos clássicos. À frente de propriedades icônicas como Il Pellicano, em Porto Ercole, na Riviera Toscana, e La Posta Vecchia, no Palo Laziale, ela agora volta seu olhar para a Umbria, região ainda preservada do turismo de luxo em escala industrial. Seu novo projeto envolve a transformação de um mosteiro beneditino próximo a Orvieto em hotel, o La Badia, cuja abertura está prevista para 2027.
Com investimento estimado em €43 milhões, o empreendimento marca uma mudança interessante de eixo: menos glamour costeiro e mais espírito monástico. A poucos quilômetros dali, Civita di Bagnoregio continua pairando sobre a paisagem como uma miragem medieval. Vale também explorar a belíssima issimoissimo.com, plataforma criada por ela que reúne moda, design e pequenos prazeres italianos com uma curadoria difícil de encontrar hoje em dia.
Altura certa
O verão europeu de 2026 traz uma nova leva de rooftops no eixo mediterrâneo, com destaque para Lisboa e Barcelona. Na capital portuguesa, o Beyond Rooftop Bar, no Chiado, rapidamente se tornou um dos endereços mais disputados da cidade, com vista panorâmica sobre telhados, rio e turistas tentando parecer locais.
Em Barcelona, espaços ligados a novos hotéis, como o Cosmico Rooftop, no SLS Barcelona, e o L’Àtic, no Lamaro Hotel, reforçam uma tendência mais híbrida entre clube, restaurante e bar. O rooftop deixou de ser apenas um terraço bonito e se transformou em destino completo, com programação, gastronomia, DJs e uma cenografia cuidadosamente pensada para existir tanto ao vivo quanto no feed. A diferença é que, agora, alguns desses lugares até conseguem entregar algo além da selfie obrigatória ao pôr do sol. Milagre raro no Mediterrâneo contemporâneo.
Fome de design
Copenhagen vive um novo momento no design, com a abertura de espaços que vão muito além da ideia tradicional de loja. Um dos exemplos mais interessantes é a Innenkreis, inaugurada neste ano, que funciona mais como galeria do que retail, apresentando peças de design contemporâneo quase como obras de coleção.
Já o Noma Projects Flavor Shop leva esse cruzamento ainda mais longe ao transformar o universo do restaurante mais celebrado da cidade em espaço físico onde gastronomia, pesquisa e design convivem naturalmente. Ali são vendidos fermentados, utensílios e produtos desenvolvidos pelo laboratório do Noma, apresentados com o mesmo cuidado de uma exposição. Em vez de consumo rápido, a proposta gira em torno de processo, autoria e narrativa. Copenhagen parece entender antes de todo o mundo que o luxo contemporâneo não está mais apenas no objeto, mas na história por trás dele. O capitalismo afetivo agradece profundamente.
Ventos do norte
Amsterdam-Noord, especialmente a região de NDSM Wharf, vem se consolidando como o novo polo criativo da cidade. Antigo estaleiro industrial às margens do IJ, o bairro passou por uma transformação radical e hoje abriga galerias, estúdios, festivais e espaços culturais espalhados entre guindastes enferrujados e antigos hangares.
Enquanto o centro histórico da capital holandesa afunda entre lojas de waffle, despedidas de solteiro e turistas pedalando como se estivessem fugindo da polícia, Noord surge como território mais livre, experimental e menos domesticado. A paisagem industrial, coberta de arte pública e intervenções contemporâneas, reforça o caráter híbrido da região, onde convivem ateliês, bares improvisados, arquitetura ousada e novos projetos imobiliários. Mais do que um bairro “cool”, NDSM mostra como várias cidades europeias estão deslocando sua vida cultural para fora dos centros saturados pelo overtourism. No fundo, é a velha história urbana: quando o turismo transforma um lugar em vitrine, a criatividade pega a balsa e vai embora.



























