A Elizabeth Diller que se graduou em 1979 na Cooper Union, em Nova York, se assemelha muito à atual, nomeada uma das cem personalidades mais influentes de 2018 pela revista Time: é questionadora.

Esse modo de pensar resulta em um método de trabalho que principia por muitas perguntas, destrinchando cada encomenda ou concurso do qual participa com seu escritório, o DS+R. Cofundado por ela e Ricardo Scofidio em 1981, o estúdio colaborativo tem ainda como sócios Charles Renfro e Benjamin Gilmartin.

Na opinião da arquiteta – vencedora do Jane Drew Prize 2019 na categoria Women in Architecture –, ao questionar o modelo de espaço público, o quarteto acabou concebendo um dos locais mais frequentados do mundo, o High Line (2009) de Nova York, em parceria com o James Corner Field Operations. Uma linha férrea elevada na porção oeste de Manhattan foi transformada no parque linear onde é possível caminhar, sentar-se e observar a cidade de cima, usufruindo do paisagismo.  

Highline, em Nova York Songkai Liu/Unsplash

NO INÍCIO, NOVA YORK

Durante os primeiros tempos do escritório, ela e Ric Scofidio não construíram nenhum projeto. Interessava-lhes mais a experimentação e as artes performáticas. Apenas na virada do milênio o urbanismo e a arquitetura entraram de fato na agenda, sem que, no entanto, renunciassem à interdisciplinaridade. Graças a essa, em 2018, com o mesmo empenho que se dedicava aos projetos arquitetônicos e dava aulas na Princeton University, Elizabeth idealizava, dirigia e produzia o espetáculo The Long-Mile Opera, que levou mil cantores ao High Line. E nos últimos anos, mergulhava na história dos antepassados do ceramista e escritor britânico Edmund de Waal, narrada em The Hare with Amber Eyes (A Lebre com Olhos de Âmbar, Edmund de Waal, editora Intrínseca), para realizar uma exposição que fica em cartaz no Jewish Museum nova-iorquino até maio.

The Shed/Brett Beyer

Nova York é a cidade de Elizabeth Diller, ainda que sua certidão de nascimento remeta seu início de vida, em 1954, a Lodz, na Polônia. Foi em Nova York que ela, seu irmão e seus pais desembarcaram em 1959, escapando do antissemitismo. Foi onde ela se encantou pelas artes. E onde vem conduzindo parcela significativa dos projetos que encabeça. Projetos de instalações culturais com as quais mantém dupla relação, de autora e usuária.

Algumas delas ficam a poucos quarteirões de seu escritório, em West Manhattan, como o The Shed, que teve a colaboração do Rockwell Group e foi inaugurado em 2019. É um centro cultural com cobertura telescópica que duplica a área fechada de apresentação; ou libera uma grande praça ao ar livre receptiva a qualquer tipo de manifestação artística. Integrado ao The Shed ergue-se o único edifício residencial do DS+R que foi colocado de pé, o 15 Hudson Yards, um arranha-céu com 88 andares e fachada de vidro curvo.

Perto dali, está o MoMA, cuja expansão também registra o talento do quarteto, dessa vez com a parceria do escritório Gensler. Além de modernizar os espaços e incluir estúdios multimídia, a reforma conectou as galerias do nível térreo, gratuitas, à rua, instigando os pedestres a descobrir o museu. Alguns quarteirões depois, o Lincoln Center, prédio brutalista onde estão sediadas a Juilliard School e a sala de concertos Alice Tully Hall, mudou de figura em 2009: cresceu e recebeu fechamentos transparentes que deixaram no passado sua feição carrancuda.

DEPOIS, O MUNDO  

The Broad Museum, em Los Angeles Claudia Lorusso/Unsplash

Dividido entre tantos segmentos de atuação, o DS+R não acumula uma lista enorme de obras realizadas. Ainda assim, alguém que se proponha a conhecer cada uma delas in loco viajará por importantes cidades americanas e por países de culturas variadas, como China, Austrália e Brasil. Pode começar, por exemplo, por Los Angeles, onde o The Broad Museum, pronto em 2015, vale tanto pela coleção de arte contemporânea dos bilionários Edythe e Eli Broad quanto pelo fascínio arquitetônico que o prédio inspira. Branco por dentro e por fora, o prisma retangular parece translúcido, já que os raios solares atravessam o véu de concreto que recobre o conjunto de três andares. Na parte de trás do terreno, o museu estende à cidade uma praça com oliveiras. 

The Tide, em Londres Esther Barry/istock images

Desembarcando na Europa, o viajante encontra em Londres a versão inglesa do High Line, batizada de The Tide e desenvolvida em associação com a firma local Neiheiser Argyros.

O parque, cuja primeira fase foi inaugurada em 2019, funciona como fio condutor da reurbanização da Península de Greenwich. Caso se encerre o circuito em 2023 – e as promessas do governo do Rio de Janeiro não sejam novamente descumpridas –, é possível fazê-lo na nova sede do Museu da Imagem e do Som, em Copacabana, que já tem 70% das obras concluídas. Iniciado em 2014, o edifício de oito andares exibe escadas-rampas que percorrem a fachada envidraçada, levando o visitante de uma atração a outra, até chegar àquela que geralmente está ao alcance de poucos: a vista panorâmica da praia, um presente de Liz Diller à população carioca.

    Voltar ao Topo