Há cidades que se visitam e cidades que se leem. Praga pertence a este último grupo. Reconhecida como Cidade Criativa da Literatura pela Unesco, a capital tcheca não é apenas um cenário de castelos e pontes barrocas; é um organismo vivo feito de palavras, dissidência, romance e mistério.
O título de Cidade Criativa da Literatura da UNESCO não é apenas um prêmio do passado: é uma estratégia viva. Praga possui uma das redes de bibliotecas municipais mais densas da Europa e é o berço espiritual de uma literatura que defendeu a liberdade de expressão frente à opressão.
Este ano, a capital tcheca soma outro capítulo a essa trajetória: a República Tcheca será a Convidada de Honra na Feira do Livro de Frankfurt (de 7 a 11 de outubro de 2026), consolidando o país como um dos centros do diálogo literário europeu. A seguir, um mapa literário em cinco capítulos, onde as páginas dos livros se transformam nas ruas de Praga.
Franz Kafka: o labirinto da alma de Praga
Para Franz Kafka, Praga era uma presença inevitável. “Praga não nos deixa partir. Esta cidadezinha tem garras”, escreveu ele certa vez. A identidade da cidade está indissoluvelmente ligada à sua prosa existencial.
O lugar: a Rua do Ouro (Zlatá ulička) (foto) e o Castelo de Praga.
No número 22 do Beco de Ouro, Kafka escreveu grande parte dos contos de “Um Médico Rural” (1919). Hoje, passear por este beco ao pôr do sol, quando o nevoeiro do rio Moldava sobe em direção ao Castelo, é o mais próximo que se pode estar de viver uma página kafkiana.
Karel Čapek: a ficção científica humanista e os jardins de Vinohrady
Nomeado sete vezes ao Prêmio Nobel, Čapek é o grande pioneiro da ficção científica moderna e o gênio que ofereceu ao mundo a palavra “robô”. Sua Praga é intelectual, vanguardista e profundamente humana.
O lugar: o bairro residencial de Vinohrady (foto) e o histórico Cemitério de Vyšehrad.
Passear pelos parques frondosos de Vinohrady, onde Čapek tinha sua mítica vila duplex e onde se reunia a intelectualidade da época, ou visitar seu túmulo em Vyšehrad — o panteão dos heróis culturais da nação —, onde seu monumento em forma de livro aberto recorda o valor da criatividade frente aos totalitarismos do século XX.
Milan Kundera: a leveza sobre a Ponte Carlos
Milan Kundera, o grande mestre da literatura tcheca do século XX e figura-chave da dissidência e do exílio, retratou uma Praga melancólica, sensual e politicamente vibrante, marcada pela Primavera de Praga de 1968.
O lugar: a Ponte Carlos (foto) e as torres da Cidade Velha.
Atravessar a Ponte Carlos ao amanhecer, antes da chegada das multidões, permite vivenciar essa mesma atmosfera de introspecção e beleza melancólica que Kundera conferiu às suas personagens icônicas, Tomás e Teresa, em “A Insustentável Leveza do Ser” (1984).
Bohumil Hrabal: a Praga dos porões e da cerveja
Não é possível compreender Praga sem sua literatura mais visceral e autêntica. Bohumil Hrabal, um dos autores tchecos mais queridos, retratou a Praga da classe trabalhadora, os filósofos de taberna e o surrealismo do cotidiano.
O lugar: a cervejaria U Zlatého Tygra (O Tigre Dourado), na Cidade Velha.
Sentar-se à mesma mesa onde Hrabal conversava durante horas a fio (e onde chegou a receber o presidente Bill Clinton) para saborear uma cerveja Pilsner servida na perfeição, enquanto se pensa na resistência silenciosa da intelectualidade tcheca — tema central de “Uma Solidão Demasiado Barulhenta” (1976).
Dan Brown: do best-seller à Praga da alquimia
Praga sempre foi a capital europeia da alquimia, da astronomia e do esoterismo. O autor de sucessos mundiais Dan Brown escolheu este cenário místico para tecer as intrincadas tramas de seu mais recente romance de suspense.
O lugar: o Relógio Astronômico de Praga (foto), o Klementinum e as ruelas da Cidade Velha.
Em “O Segredo Final” (2025), as engrenagens do famoso Relógio Astronômico da Praça da Cidade Velha não só medem a passagem do tempo, como guardam mistérios ancestrais que ligam ciência, fé e os segredos mais bem guardados da história tcheca. Contemplar o desfile dos Doze Apóstolos ganha um novo misticismo sob a perspectiva de um thriller moderno — ainda mais com a produção em andamento de uma minissérie de oito episódios pela Netflix, rodada nos cenários reais da cidade, incluindo o majestoso Klementinum.

























