O carro desacelera quase cinematograficamente ao passar pela fachada do antigo Surf Club na Collins Av, antes de fazer a curva para estacionar diante da nova entrada — bem contemporânea — do Four Seasons Hotel at The Surf Club, em Surfside, a pequena faixa de areia branquinha rodeada de verde ao norte da agitação performática de South Beach.
Mais apropriado, impossível; a sensação, ao atravessarmos o Peacock Alley (como o lobby do hotel é chamado) a caminho da recepção, onde alguém já nos estende rapidamente uma taça de champanhe, é a de mergulharmos numa dimensão paralela na qual o tempo desacelera automaticamente.
O famoso endereço à beira-mar carrega quase um século de história: em 1930, o magnata Harvey Firestone inaugurou ali o Surf Club, um clube privado que resistiu à lei seca com champanhe e destilados correndo livremente por seus corredores de inspiração mourisca e mediterrânea. Tornou-se, então, palco de festas extravagantes e jantares black tie que receberam personalidades como Winston Churchill, Frank Sinatra e Elizabeth Taylor.
O tempo passou. Até que o grupo Four Seasons resolveu recuperar o edifício histórico (com projeto e restauração de Richard Meier, além de três novas torres) e inaugurou uma nova era de glamour na região, transformando o antigo ícone local em um dos hotéis mais sofisticados dos Estados Unidos.
Discreto e sofisticado
Longe da agitação de Miami, o dia ali começa silencioso e tranquilo, em acomodações de proporções generosas — são apenas 72 no hotel. Todas têm pelo menos uma das paredes com vidro do chão ao teto, o que inunda os ambientes de luz natural. Tons neutros, madeiras claras e tecidos leves enquadram o oceano sem cerimônia e parecem levá-lo diretamente à cama.
Quem precisa de ainda mais espaço pode recorrer (se encontrar disponibilidade…) à nova Beach Villa do hotel: em 483 metros quadrados distribuídos em dois andares, são quatro quartos, jardim e piscina privativos e acesso direto à praia.
Com atmosfera que mais lembra uma residência, tem um perfeito living no lugar do lobby e uma deliciosa teatralidade nos corredores, incluindo a luz natural que atravessa discretamente seus arcos e contorna pátios simétricos e paredes repletas de fotos históricas.
Bem no centro do antigo clube funciona hoje o Champagne Bar, praticamente um centro gravitacional da propriedade, tranquilo durante o dia e extremamente vívido à noite. Ali são oferecidos impecáveis martínis e um louvável menu de coquetéis autorais, além de uma das mais interessantes cartas de champanhes do país.
O bar é vizinho ao Lido Restaurant, que tem um menu com influências italianas (incluindo trufas, muitas trufas) e exibe um glamour discreto que parece nos transportar à Costa Amalfitana. O garçom brasileiro Mario, há mais de duas décadas radicado nos EUA, e o sommelier colombiano Luís são duas grandes estrelas da casa, craques em precisas recomendações — sobre o menu, o hotel ou a própria Miami. O Champagne Bar está sempre aberto também a não hóspedes.
O café da manhã é servido elegantemente no Lido Terrace, com vista para o mar. O croissant com ovos mexidos, trufas, rúcula e pecorino é de fazer salivar só de lembrar. Há um bar e restaurante mais informal à beira da piscina, o Winston’s on the Beach. O Four Seasons Hotel at The Surf Club conta também com um restaurante do chef Thomas Keller, embora não seja administrado pelo resort.
Com a linha azul do Atlântico entre palmeiras que parecem ter sido perfeitamente alinhadas à beira-mar, são três piscinas entre os jardins tropicais de grandes gramados, impecável serviço de praia, cabanas históricas restauradas, uma grande academia e um excepcional spa com produtos Biologique Recherche, ideal para recarregar energias e amenizar o jetlag.
Em um destino famoso pelo estímulo permanente, um dos maiores luxos num hotel é também garantir o distanciamento dele. Alheio aos excessos comuns a Miami, o Four Seasons at the Surf Club, além de tudo o que oferece, proporciona algo raro e cada vez mais apreciado: discrição e sossego.



























