A convite da The Traveller, a jornalista Mari Campos percorre dois endereços Four Seasons na Flórida que traduzem diferentes estilos de hospitalidade à beira-mar, sem abrir mão da excelência em serviço.
NAPLES BEACH CLUB, A FOUR SEASONS RESORT
Considerada a capital do quiet luxury nos EUA, Naples acaba de ganhar um dos mais sofisticados hotéis do pa
O céu ainda rosado, mar impressionantemente turquesa, os primeiros raios de sol tocando as areias branquinhas, pouco a pouco ocupadas por charmosos conjuntos de espreguiçadeiras e guarda-sóis em azul e branco. Poderia ser uma cena caribenha, mas acontece na pequena Naples, na costa sudoeste da Flórida, considerada um dos mais sofisticados refúgios dos Estados Unidos.
Completamente alheia ao overtourism, Naples combina a beleza natural à beira-mar com a agitada cena cultural e um estilo de vida descontraído. Fica a cerca de duas horas e meia de estrada da badalada Miami e conta também com um pequeno aeroporto para jatos privativos.
Com arredores atravessados por quilômetros de canais, muito sol, praias quase desertas, temperatura média anual de 24 graus e charme de cidade pequena (mas sem abrir mão da própria Fifth Avenue, onde Gucci e Louis Vuitton dividem espaço com galerias de arte, joalherias, cafés e restaurantes), Naples é a antítese de Miami: evita a verticalização da cidade e tem zoneamento urbano e normas ambientais muito rigorosos.
Esse enclave discreto, batizado no fim do século 19 em homenagem à cidade italiana homônima, foi fundado para ser um balneário veranesco mesmo no auge do inverno em outras partes do país. Hoje, a cidade de menos de 20 mil habitantes acaba de ganhar o Naples Beach Club, A Four Seasons Resort, empreendimento com 50 hectares privativos em 300 metros de praia.
Tranquilidade e privacidade
O impacto começa na chegada ao lobby, cheio de luz natural, com teto de cipreste-calvo (madeira endêmica rara da região), um grandioso lustre e paredes adornadas com baixos-relevos de palmeiras. As acomodações têm grandes varandas mobiliadas com área para refeições, pé-direito alto, marcenaria customizada, closets generosos e marcantes detalhes, num estilo atemporal e vanguardista ao mesmo tempo. A maioria tem vista panorâmica para o mar.
O The Merchant Room, restaurante principal do hotel, é assinado pelo chef Gavin Kaysen, que cresceu veraneando em Naples e foi duas vezes vencedor do Prêmio James Beard. O menu propõe um toque francês aos sabores característicos do Golfo e destaca carnes maturadas e massas artesanais. Com ambientes interno e externo, tem também um excelente bar e um mural do artista nova-iorquino Dean Barger que é praticamente uma ode à natureza do lugar.
À beira-mar há duas grandes piscinas, cabanas exclusivas, um Sunset Bar (Naples é famosa pelos fins de tarde arrebatadores) e um reimaginado restaurante HB’s, ícone local, com cardápio muito fresco e vista para o mar (aberto para não hóspedes, mas é fundamental reservar com antecedência). O serviço de praia, sempre atento, garante água geladinha como cortesia assim que o hóspede se senta em uma das espreguiçadeiras desse pedacinho do litoral que mais parece privativo.
O complexo tem ainda ampla oferta de esportes náuticos, Racquet Club (com seis quadras Har-Tru) e clube infantil. Um outro edifício, separado, abriga o café e “marketplace” Naples Trading Company e um excepcional spa de quase 2,8 mil metros quadrados distribuídos em dois pavimentos, com direito a piscina para natação, academia 24 horas projetada por Harley Pasternak, múltiplas salas de tratamento e um andar inteiro dedicado à hidroterapia (vapor com aromaterapia, saunas finlandesas, piscinas de vitalidade, imersão fria, duchas sensoriais etc). Em breve, serão inaugurados por ali também um gastro pub esportivo, sala de jogos, cinema e boliche de quatro pistas.
Tudo isso praticamente no coração de Old Naples, excelente base para explorar os principais atrativos da chamada Paradise Coast, das compras na elegante Quinta Avenida a visitas a museus, dos concertos da Orquestra Filarmônica de Naples a charmosos passeios de barco para pesca, piqueniques ou visitas ao Parque Nacional Everglades. Com sossego e privacidade absolutos.
FOUR SEASONS HOTEL AT THE SURF CLUB
Em Miami, uma propriedade que alia o glamour de outrota à discrição e à excelência em serviços.
O carro desacelera quase cinematograficamente ao passar pela fachada do antigo Surf Club na Collins Av, antes de fazer a curva para estacionar diante da nova entrada — bem contemporânea — do Four Seasons Hotel at The Surf Club, em Surfside, a pequena faixa de areia branquinha rodeada de verde ao norte da agitação performática de South Beach.
Mais apropriado, impossível; a sensação, ao atravessarmos o Peacock Alley (como o lobby do hotel é chamado) a caminho da recepção, onde alguém já nos estende rapidamente uma taça de champanhe, é a de mergulharmos numa dimensão paralela na qual o tempo desacelera automaticamente.
O famoso endereço à beira-mar carrega quase um século de história: em 1930, o magnata Harvey Firestone inaugurou ali o Surf Club, um clube privado que resistiu à lei seca com champanhe e destilados correndo livremente por seus corredores de inspiração mourisca e mediterrânea. Tornou-se, então, palco de festas extravagantes e jantares black tie que receberam personalidades como Winston Churchill, Frank Sinatra e Elizabeth Taylor.
O tempo passou. Até que o grupo Four Seasons resolveu recuperar o edifício histórico (com projeto e restauração de Richard Meier, além de três novas torres) e inaugurou uma nova era de glamour na região, transformando o antigo ícone local em um dos hotéis mais sofisticados dos Estados Unidos.
Discreto e sofisticado
Longe da agitação de Miami, o dia ali começa silencioso e tranquilo, em acomodações de proporções generosas — são apenas 72 no hotel. Todas têm pelo menos uma das paredes com vidro do chão ao teto, o que inunda os ambientes de luz natural. Tons neutros, madeiras claras e tecidos leves enquadram o oceano sem cerimônia e parecem levá-lo diretamente à cama. Quem precisa de ainda mais espaço pode recorrer (se encontrar disponibilidade…) à nova Beach Villa do hotel: em 483 metros quadrados distribuídos em dois andares, são quatro quartos, jardim e piscina privativos e acesso direto à praia.
Com atmosfera que mais lembra uma residência, tem um perfeito living no lugar do lobby e uma deliciosa teatralidade nos corredores, incluindo a luz natural que atravessa discretamente seus arcos e contorna pátios simétricos e paredes repletas de fotos históricas.
Bem no centro do antigo clube funciona hoje o Champagne Bar, praticamente um centro gravitacional da propriedade, tranquilo durante o dia e extremamente vívido à noite. Ali são oferecidos impecáveis martínis e um louvável menu de coquetéis autorais, além de uma das mais interessantes cartas de champanhes do país.
O bar é vizinho ao Lido Restaurant, que tem um menu com influências italianas (incluindo trufas, muitas trufas) e exibe um glamour discreto que parece nos transportar à Costa Amalfitana. O garçom brasileiro Mario, há mais de duas décadas radicado nos EUA, e o sommelier colombiano Luís são duas grandes estrelas da casa, craques em precisas recomendações — sobre o menu, o hotel ou a própria Miami. O Champagne Bar está sempre aberto também a não hóspedes.
O café da manhã é servido elegantemente no Lido Terrace, com vista para o mar. O croissant com ovos mexidos, trufas, rúcula e pecorino é de fazer salivar só de lembrar. Há um bar e restaurante mais informal à beira da piscina, o Winston’s on the Beach. O Four Seasons Hotel at The Surf Club conta também com um restaurante do chef Thomas Keller, embora não seja administrado pelo resort.
Com a linha azul do Atlântico entre palmeiras que parecem ter sido perfeitamente alinhadas à beira- mar, são três piscinas entre os jardins tropicais de grandes gramados, impecável serviço de praia, cabanas históricas restauradas, uma grande academia e um excepcional spa com produtos Biologique Recherche, ideal para recarregar energias e amenizar o jetlag.
Em um destino famoso pelo estímulo permanente, um dos maiores luxos num hotel é também garantir o distanciamento dele. Alheio aos excessos comuns a Miami, o Four Seasons at the Surf Club, além de tudo o que oferece, proporciona algo raro e cada vez mais apreciado: discrição e sossego.



























