Amanhece no Parque Nacional dos Vulcões, e a insistência da névoa sobre a floresta encobre a adrenalina da subida pela mata fechada, rumo a um dos encontros mais inusitados do planeta.
Deparar-se com aqueles olhos “quase humanos” é como dar de cara com os rastros da evolução: os gorilas-das-montanhas compartilham mais de 98% do nosso DNA. Somos nós, na linha do tempo.
Impossível não se emocionar com tamanha proximidade ancestral. Estar diante desses gigantes gentis é, antes de tudo, um exercício de reverência. Outrora ameaçados de extinção, hoje caminham como símbolos vivos da renovação de Ruanda. Eles não só são o maior atrativo da nação como também acompanham, passo a passo, a cicatrização das feridas do “país das mil colinas”, na busca por superar o pesadelo do recente genocídio — uma tragédia que ceifou 1 milhão de vidas. Agora, Ruanda escreve uma nova e luminosa página em sua trajetória.
A passos largos, o país floresce e nos recebe com a organização impecável de um povo que soube ver na reconciliação o melhor caminho. Uma lição de humanidade, em que a proteção da vida selvagem e a cura de uma nação seguem firmes em direção ao futuro.
NOS MEUS OLHOS
O trekking em busca dos gorilas exige fôlego. Acordar cedo é preciso para chegar com os primeiros raios de luz à sede do Parque Nacional dos Vulcões. É onde o máximo de 96 pessoas ao dia recebem instruções para saber como se comportar durante o grande encontro com a família designada. Não olhar diretamente nos olhos dos animais, evitar movimentos bruscos e baixar a cabeça em sinal de submissão são regras de ouro para a segurança mútua. Atualmente, 22 famílias habitam a tríplice fronteira entre Ruanda, Uganda e a República Democrática do Congo. A minha, Kwitonda, foi batizada em homenagem a um lendário silverback, cujo nome significa “humilde”, refletindo o comportamento pacífico que eles costumam ter.
No almoço, sinta o clima de Viena no Café Sabarsky, restaurante charmoso inspirado nos cafés vienenses do início do século 20, e aproveite para ver obras de Gustav Klimt e Egon Schiele na Neue Galerie, que fica no mesmo endereço e é dedicada à arte e ao design alemão e austríaco. Depois de um passeio pelo Guggenheim, faça jus à cidade em que a tradição é terminar o dia com um coquetel e descubra as cenas lúdicas dos murais de Ludwig Bemelmans no Bemelmans Bar do hotel The Carlyle, com jantar no Caviar Kaspia, no hotel The Mark
Guias experientes abrem caminho pela selva conduzindo o grupo. Somos sete. Pequenas pausas são necessárias para aquietar a mistura de sensações entre ansiedade e rarefação do ar. Mas a verdade é que as duas horas de caminhada montanha acima passam num piscar de olhos, até que, subitamente, entre galhos e folhagens, a magia acontece. Um vulto negro, de costas prateadas, percebe nossa chegada. Karibu, um imenso silverback, lança um olhar profundo, mas nem por isso interrompe sua farta refeição. Está seguro. O encontro com o patriarca e sua família é uma experiência que acalanta a alma. Por cerca de uma hora, a sensação é de pertencimento, observando mães zelosas e adolescentes em plena algazarra, a poucos metros de distância.
Essa segurança deve-se, em grande parte, ao trabalho pioneiro e apaixonado da zoóloga americana Dian Fossey. Sua dedicação incansável para proteger esses primatas contra a brutalidade dos caçadores foi imortalizada no filme A Montanha dos Gorilas, estrelado por Sigourney Weaver. O legado de Fossey é quantificável. Se na década de 1970 a população estava reduzida a números alarmantes — menos de 200 animais —, hoje os esforços de conservação permitiram que a espécie saísse da lista de “criticamente ameaçada”, com uma população que já triplicou e não para de crescer.
Os gorilas-das-montanhas são espécies endêmicas, o que significa que não existem em nenhum outro lugar, senão ali. Eles vivem em regiões elevadas, que tendem a ser frias, daí a pelagem espessa para mantê-los aquecidos. Raramente bebem água de forma direta, pois retiram do bambu todo o líquido de que precisam para sua hidratação. E, depois de passarem longos períodos se alimentando, eles não dispensam a famosa “siesta”, um período de descanso para os adultos enquanto os filhotes brincam.
O valor da licença para realizar o trekking faz a diferença: é revertido em benefícios diretos para a comunidade local. Ruanda nos ensina que o renascimento é possível por meio da preservação da fauna, da flora e, acima de tudo, da Singita Volcanoes National Park/Ross Couper dignidade humana.
UMUGANDA
Após deixar as montanhas, desembarcar em Kigali é atravessar o portal para uma jornada carregada de significado. Caminhar por suas ruas impecáveis, onde o plástico é persona non grata e o asfalto parece recém-lavado, desafia qualquer estereótipo ocidental sobre o continente africano. Essa ordem quase poética tem nome: Umuganda. No último sábado de cada mês, a nação faz uma pausa e, do cidadão comum ao presidente, todos saem às ruas para limpar, plantar e construir, em um esforço coletivo que sedimenta o orgulho de pertencer a um país que decidiu se reerguer.
No entanto, não se pode entender a Ruanda de hoje sem honrar a memória e a dor de 1994. Durante cem dias, o ódio interétnico entre hutus e tutsis (ironicamente, a distinção entre esses dois grupos, que tinham a mesma herança cultural, era baseada apenas em registros impostos durante a colonização europeia) culminou em um dos maiores massacres da humanidade. O estopim foi o atentado contra o avião presidencial, mas as cicatrizes foram profundas e cortaram famílias ao meio. Uma pesada colcha de memórias que encontra profunda reflexão no subúrbio de Gisozi, onde o Memorial do Genocídio documenta a tragédia com uma linha do tempo arrebatadora, mantendo vivas as vozes das mais de 250 mil vítimas que ali descansam.
Contudo, a verdadeira alma dessa reconstrução reside no olhar feminino. Depois do conflito, com a população masculina drasticamente reduzida, Ruanda confiou às suas mulheres a tarefa de costurar as feridas abertas. Hoje, com o parlamento ostentando a maior representatividade feminina do mundo — as mulheres ocupam perto de 70% das cadeiras —, elas são as grandes arquitetas de uma governança resiliente. É nelas que vemos o futuro sendo desenhado com uma mistura rara de firmeza e doçura.
Atravessar Ruanda é testemunhar o milagre do perdão sobre o rancor. É uma lição viva de que a resiliência é uma escolha diária e de que, mesmo após o mais denso inverno, a vida sempre encontra um caminho para florescer com (mulher) Singita Volcanoes National Park/CrookesAndJackson, (família) Singita Volcanoes National Park/Jordan Snowzell, (sala) Singita Volcanoes National Park/Ross Couper coragem e dignidade.
UMA JANELA PARA O CÉU
Essa força feminina que reconstrói a política em Kigali ecoa com a mesma intensidade nas encostas das montanhas de Virunga. Em Kinigi, a regeneração ganha fios, cores e texturas nas mãos das mulheres da Kinigi Women’s Village. O projeto de empode – ramento de mães solteiras, comandado por Doreen Kanye-sigye, é um exemplo luminoso de como o artesanato local pode — e deve — servir como motor de inclusão social. Ali, elas encontraram nas habilidades manuais não apenas o sustento, mas um espaço de cura e dignidade. Observar o manejo habilidoso das miçangas, da palha, dos tecidos, das tintas e da madeira é entender que cada peça produzi – da carrega a determinação de quem conseguiu fazer da arte, esperança. É a economia circular em sua forma mais humana: a força de trabalho local garantindo que o progresso do país não deixe ninguém para trás.
Essa comunhão entre o social e o ambiental atinge seu ápice no Singita Kwitonda. Inaugurado no final de 2019, o lodge de perfil discreto e intimista não é apenas um dos mais espetaculares da África; é um manifesto de respeito à cultura local. O nome “Kwitonda” — emprestado do lendário gorila silverback — já anuncia o compromisso com a preservação da espécie.
Ao caminhar pelo Singita, percebe-se que o verdadeiro luxo não é a opulência vazia, mas sim um veículo de conservação e sustentabilidade que transborda harmonia. Projetadas com elementos naturais como pedra vulcânica, madeira e palha, as 11 suítes são extremamente elegantes e espaçosas, com lareiras interna e externa e piscina privativa aquecida. De seus janelões, os olhos alcançam os vulcões Sabyinyo, Gahinga e Muhabura. Na decoração, destacam-se objetos talhados por artesãos locais. Ali, o luxo é silencioso e responsável.
Não posso deixar de citar a gastronomia excepcional do hotel, que prioriza alimentos frescos vindos da própria horta orgânica e traz na sua filosofia uma política “zero plástico”. O Singita tem escola de culinária de padrão elevado, em Musanze; e também oferece oficinas de artesanato para capacitar a comunidade. Além disso, a adega, uma das mais premiadas do continente, celebra o prazer com consciência. No entanto, antes de qualquer brinde, o lodge convida a um mergulho na sua Sala de Conservação.
O espaço, que funciona como um museu afetivo, guarda relíquias do legado de Dian Fossey, como sua máquina de escrever e malas de viagem originais. É um tributo necessário à mulher que salvou os gorilas-das-montanhas da extinção causada pela insanidade dos caçadores que vendiam suas mãos para servir como cinzeiros. Segundo Luke Bailes, proprietário do grupo Singita, que conta com hotéis-referência em cinco países da África, a única fronteira possível para o futuro é manter o equilíbrio entre turismo, impacto social, sustentabilidade e vida selvagem.
É evidente que Ruanda é uma das mais belas surpresas do continente africano desta última década. Uma viagem transformadora que nos ensina a agradecer com a alma, do primeiro ao último minuto. Murakoze!



























