O movimento antituristas, que tomou conta das cidades mais visitadas da Europa, passa longe do Uzbequistão, um portal azul no coração da Ásia, na antiga rota da seda.

“Istão” está para Uzbequistão assim como “pólis” está para Petrópolis ou “land” para Netherlands. Isso porque “istão” significa terra de, lugar de, território dos. E lá fui eu em busca de um sonho: conhecer os “istões” da Ásia Central.

Aqui vou me ater ao Uzbequistão, o que tocou mais profundamente meu coração. Tem influência árabe, russa, mongol e persa. Quem ama uma boa viagem sabe: mix cultural é sinônimo de artesanato, gastronomia, cultura, arquitetura e experiências surpreendentes.

Visitei quatro cidades: Tashkent, a maior do país; Khiva, medieval; Bukhara e seus mais de cem edifícios históricos; e, por fim, Samarkand, o centro da cultura regional — e da famosa rota da seda. Viajei com meu marido, e contando com dois apoios fundamentais: um roteiro planejado por uma agência e um guia local que nos conduziu — mais adiante eu o apresento para você. Viajamos de carro, de trem, de avião e a pé. Fui de coração aberto e me encantei com a imensidão dos mausoléus, mesquitas e madrassas. Mergulhei nos mil tons de azul.

Camilla Guebur entre as cores e formas de Samarkand. Acervo pessoal

Tudo no Uzbequistão desperta a curiosidade. A história é feita de uma sequência de plot twists: o país pertenceu ao Império Persa, a Alexandre, o Grande, ao Império Mongol e seus Khans (os soberanos)… Foi alvo de disputas entre árabes e povos islâmicos, cobiçado por turcos e gregos, territó rio “russificado” nos tempos dos czares e soviético durante a existência da União Soviética.

Apesar dos quiprocós, hoje o país goza de certa calmaria, mantida por um presidente eleito por voto popular, Shavkat Mirziyoyev, e atestada com olhos atentos pela ONG Human Rights Watch. É seguríssimo para viajantes — respondendo à pergunta que nove entre dez pessoas me fizeram quando postei essas andanças no Instagram.

A história movimentada de invasões tem seu bônus. Cada “turma” deixou suas marcas culturais e seu legado arquitetônico em monumentos grandiosos, em tamanho e em detalhes. As estações de metrô de Tashkent são heranças soviéticas e se parecem com palacetes. Ganharam status de orgulho nacional. Merecido.

Na Cidade Velha de Khiva, a cúpula turquesa do Mausoléu de Pahlavon Mahmud e o icônico Minarete Kalta Minor. Gettyimages/Emad aljumah

Segundo pesquisa anual da Gallup Global Emotions, medidor mundial de saúde mental e emocional, o Uzbequistão figura em nono lugar entre os países com a população mais satisfeita do planeta e em segundo na lista de menos estressadas. De fato, só encontrei pessoas muito cordiais e simpáticas.

Perguntavam com entusiasmo sobre nossa origem, e eu notava uma alegria curiosa ao ouvirem “Brasil”. O Uzbequistão está na rota dos europeus e americanos, mas nós ainda somos raros por lá. Por falar em brasileiros, que adoram uma lojinha, não faltam maravilhas: cerâmicas lindas (amo e até faço as minhas) e os deslumbrantes ikats em seda. Tecelagem é patrimônio nacional. Os tecidos para decoração são belíssimos. E há também vestidos, em qualquer loja de rua e nos mercados, com o toque de seda mais macio que você poderá sentir. Em algumas lojas, é possível fazer uma roupa para você com o ikat da sua escolha, e as habilidosas costureiras entregam a você horas depois, no hotel.

E os preços são honestos. O dólar equivale a UZS 12.632 (Sum Uzbeque, a moeda local), que equivale a R$ 5, mais ou menos. Uma refeição custa, em média, R$ 100. A receita mais tradi cional é o Plov, com arroz frito, carne (normalmente cordeiro), cebola, pimentão e cenoura. Eu adorei. Outras especialidades são o osh, arroz aromático com cenoura e cordeiro, e a samsa, torta recheada com carne, abóbora, batata ou verduras. Usam tempe ros árabes e russos, tal qual a arquitetura.

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O prato mais excêntrico é um carpaccio de cavalo. É daquelas particularidades culturais que surpreendem. Não me animei. Preferi a refeição uzbeque oferecida pelo nosso guia, Mr. Khurshid, na casa de sua família. Comemos com as mãos e com amor. Se não fosse ele, repito, nossa viagem não teria sido perfeita como foi.

O inglês é raro no país, então um bom guia é indispensável. Culto, educado, falante de espanhol e inglês impecáveis, ele nos recebeu na fronteira entre o Cazaquistão e o Uzbequistão. E nos acompanhou o tempo todo.

Desde a porta de casa, voamos de São Paulo para Doha, no Catar, depois até Almati, no Cazaquistão, onde passeamos e de onde seguimos para a terra dos uzbeques. Voltamos para casa via Istambul. Valeu cada quilômetro. A seguir, dicas de cada cidade, para uma experiência autêntica e especial — vá!

Em Khiva, Camilla veste chapéus típicos. Camilla Guebur
Ótimas compras na loja Azukar Moreno, em Tashkent.

TASHKENT

A maior e mais moderna cidade do país tem um centro histórico “uau”: perca-se nos tons de azul do Complexo Hazrati Imam, com seus mausoléus, madrassas e mesquitas. Gostei muito do Chor-su Bazaar e fiz ótimas compras na loja Azukar Moreno. Nas lojinhas das vielas, ateliês de artesanato, sedas, tecelagens, bordados e ikats belíssimos. O Museu das Artes Aplicadas e a biblioteca são demais. Para comer: o Prokhinkali serve deliciosa e típica comida da Geórgia, país quase vizinho, e tem décor supercool. Eu me hospedei no Hyatt Regency, de estilo clássico, com café da manhã maravilhoso.

KHIVA

Aqui fica Itchan Kala, cidade histórica, murada e celebrada pela Unesco, que guarda a maior madrassa da Ásia Central, a Mohamed Amin Khan. Na Mesquita Juma, mais de 200 colunas de madeira entalhada encantam. O Minarete Kalta Menor, apesar do nome, é o maior e mais alto mirante muçulmano do mundo. Atenção para as cerâmicas locais. A refeição mais gostosa eu experimentei no lindo pátio interno do hotel onde me hospedei, o Farovon — me surpreendeu sua boa comida e seu bom serviço.

Mesquita Bolo Hauz, em Bukhara, construída em 1712. Camilla Guebur
Interior do Mausoléu Gur-e-Amir, em Samarkand. Camilla Guebur

BUKHARA

A cidade tem construções do século 5. É charmosa, cheia de casas de chá e ateliês. Por sua ligação com o profeta bíblico Jó, a fonte Primavera Sagrada é considerada milagrosa por peregrinos. No restaurante Ayvan, saboreie o típico Plov em uma casa do século 19, projetada pelo arquiteto da residência de verão do último Khan. Ela é um dos atrativos da cidade.

SAMARKAND

Cheguei de trem ao ponto central da rota da seda. E saí de lá com minha veia consumista saciada: mala lotada de ikats, comprados no Bazaar Siab, o vivo mercado local, com suas frutas e sabores instigantes. Não perca o restaurante Emirham: comida excelente e vista para os monumentos da Registan Square. Recomendo o Hilton — ainda que mais afastado, é um hotel novo, fiquei em um quarto incrível.

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