No salão lotado, com música ao vivo, entre conversas e gargalhadas, viajantes dos mais distintos perfis se reúnem trocando histórias pessoais e opiniões calorosas sobre política, streaming e até memes.
Para alguém de fora, seria no mínimo curioso ver gente tão diferente, unida pelo desejo de cuidar da saúde, tão animadamente entrosada — mesmo tendo se conhecido apenas um dia ou horas antes. Em vez de inserir na programação pós-jantar palestras motivacionais, como muitas propriedades similares fazem, o Kurotel, maior spa médico da América Latina, localizado em Gramado, Rio Grande do Sul, resolveu apostar em algo diferente para garantir o bem-estar de seus hóspedes: a socialização.
Toda noite, o hotel promove atividades 100% focadas no convívio social como parte de seu método de wellness, geralmente ao som de bossa nova, jazz ou até tango. Os bons papos continuam durante o dia seguinte nos mais diversos ambientes da propriedade, da academia à piscina, dos livings aos jardins. E são justamente esses eventos sociais — e as amizades que eventualmente se originam neles — que têm aparecido com destaque em boa parte das avaliações de hóspedes.
Se até pouco tempo atrás práticas de bem-estar eram majoritariamente experiências individuais e silenciosas, agora estão se tornando mais coletivas e envolventes do que nunca. Grupos de corrida, rodas de meditação, clubes de bem-estar e toda uma nova gama de experiências guiadas pela interação social começam a dominar o mercado de wellness, que movimenta atualmente, segundo dados do Global Wellness Institute, mais de 5 trilhões de dólares.
Calor humano
A teoria dos “terceiros espaços”, criada nos anos 1980 pelo sociólogo Ray Oldenburg, sugerindo que necessitamos naturalmente de lugares alheios à casa e ao trabalho para fortalecer o bem-estar, tornou-se a base para muitos novos programas da área. Quimicamente, o contato humano é capaz de diminuir os níveis de cortisol e aumentar os de serotonina, melhorando automaticamente a sensação de bem-estar.
A tendência, que vem tomando conta de spas e de alguns dos melhores hotéis do mundo, busca a conexão humana como garantia de equilíbrio físico e mental do mesmo jeito que acredita na prática de exercícios e na alimentação saudável.
Nos Estados Unidos, surgiram espaços como o Remedy Place (que se define como “primeiro clube de bem-estar social do mundo”), o Continuum Club, o The Well e o Othership. Em Londres, endereços como The Other House, Grey Wolfe e Surrenne fazem coro a esse movimento global. No cardápio de atividades, coisas tão variadas como happy hours com mocktails, banhos terapêuticos, esportes e até massagens nos pés entre conversas animadas.
Em Dubai, um dos primeiros destinos a criar experiências de bem-estar coletivas — como o Dubai Fitness Challenge, que promove de aulas de yoga a sessões de dança em praias, parques e áreas urbanas —, a Aura SkyPool, no 50º andar da Palm Tower, aposta em eventos de yoga, alongamento e sound healing na piscina, combinando movimento, música e bom papo, com o inconfundível skyline de Dubai à vista.
Até a tradição finlandesa de fazer das saunas pontos de socialização ganhou corpo. Esses espaços viraram febre primeiro no Vale do Silício — onde receberam o apelido de “saunas sociais” — e depois se espalharam mundo afora, chegando até a São Paulo com o Kontrast, uma espécie de clube que estimula o autocuidado com animados encontros em saunas e banheiras de gelo. Mesmo antigos clubes do livro ganharam nova roupagem e agora atendem por “retiros de leitura”, viagens geralmente organizadas em hotéis imersos na natureza, das cachoeiras da Costa Rica às ilhas gregas, reunindo pessoas para dias de leitura, ócio, detox digital e discussões acaloradas ao redor de uma boa mesa.
Redesenhando experiências
As novas atividades de bem-estar, cada vez mais integradas a eventos sociais, criam oportunidades valiosas de convivência, seja para hóspedes que viajam com amigos ou em família, seja para completos desconhecidos. E facilitam — muito! — o entrosamento entre viajantes mais tímidos. O evento Inspire, que acontece duas vezes ao ano no hotel Carmel Charme, em Aquiraz, no Ceará, aposta em atividades de bem-estar em torno da yoga e de experiências sociais à beira-mar.
O Siro, em Dubai, se inspirou no modelo de “clube” da Soho House para criar experiências pensadas para serem desfrutadas em grupo, em espaços especificamente projetados para favorecer a convivência social. No Marrocos, até a caligrafia árabe (tradição listada pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade) tem unido viajantes em busca de bem-estar no hotel Royal Mansour. Seu ateliê d’Artiste, alocado entre os amplos jardins da propriedade, oferece sessões de caligrafia para aliviar o estresse e reduzir a ansiedade com a fluidez da escrita árabe — e do bate-papo ao longo da atividade.
Na Riviera Maya, no México, o Palmaïa, The House of AïA, criou “rituais de som” que fazem da praia um palco para hóspedes aliviarem tensões por meio de batidas de ritmos ancestrais e da dança. Já no Four Seasons Naviva, que tem somente 15 bangalôs na floresta nativa de Punta Mita, atividades como treinos ao ar livre com elementos naturais locais (como pedras e árvores), jantares que mesclam meditação guiada, arte e gastronomia ou o Naviva Unplugged (aclamada série de concertos ao vivo ao redor de uma fogueira na praia) criam uma espécie de tapeçaria sensorial que valoriza sobretudo a conexão humana como ferramenta para o bem-estar — sempre com vista para o oceano, é claro. Quando o assunto é se sentir bem, bom papo e calor humano jamais sairão de moda.



























